A cognição em benefício da autonomia
Por que ser dono de si requer habilidades específicas


Por Cláudia Capitão


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Uma das nossas maiores conquistas, ou o que nos motiva a crescermos, é o exercício da autonomia. Ser “dono do próprio nariz” é tudo o que a maioria das pessoas almeja. Mas o que vem a ser autonomia e como ela se constitui?

Por autonomia podemos compreender nossa condição de ir e vir sem precisar do consentimento de outra pessoa, capacidade de tomarmos decisões,  seja para resolver assuntos banais ou verdadeiros dilemas, expressar nossas emoções e adotarmos comportamentos que nos adaptem ao meio e às situações do dia-a-dia, dentre outras habilidades conferidas pelos processos cognitivos. Os mesmos englobam um conjunto de funções mentais que torna o homem capaz de processar as informações, interagir com o meio e gerenciar sua própria vida...aí sim, quando somos capazes de gerenciar nossa própria vida adquirimos nossa plena autonomia.

Desde o momento que somos gerados passamos por uma série de mudanças, tanto neurobiológicas quanto sócio-afetivas, que fazem com que nosso cérebro se desenvolva e utilize seu potencial. Este desenvolvimento propicia a aquisição de uma série de habilidades cognitivas que nos permite desde a manipulação do próprio corpo a utilização de objetos e criação de idéias. Tais habilidades estão principalmente associadas ao córtex cerebral e se organizam como sistemas funcionais, ou rede de conexões, responsáveis pela modulação de processos complexos, como raciocínio, linguagem, memória, percepção, habilidades motoras e comportamento.  Sem nos atermos muito as especificidades neurais e organização neuroanatômica cortical, podemos destacar algumas das principais funções cognitivas que nos permitem o exercício da autonomia.

Quando somos ainda bebês nosso desenvolvimento ocorre primeiramente em regiões sensório-motoras, uma vez que precisamos adquirir condições para perceber o que está ao nosso redor e para executarmos movimentos. Nossa primeira “autonomia” surge quando não dependemos mais do outro para sairmos do lugar. Neste caso podemos descrever o desenvolvimento percepto-motor, ou seja, eu vejo algo que desperta o meu interesse e tenho condições de me dirigir a ele.

Outra grande conquista durante os primeiros anos de vida é a aquisição da linguagem. Além de perceber os objetos, pessoas e movimentar-se para explorar o meio, a criança passa a ser capaz de se comunicar com o outro, de se expressar, se fazer entendida e compreender o outro.  A habilidade lingüística permitiu ao homem uma autonomia não conferida as outras espécies, que é uso da palavra para se ajustar ao meio. Pensamento e linguagem traduzem uma forma de se posicionar no mundo.

Todas essas habilidades se desenvolvem quase que simultaneamente, pois várias regiões do cérebro são estimuladas ao mesmo tempo. O que varia é a complexidade de cada uma conforme a faixa etária, ou seja, ao período de desenvolvimento infanto-juvenil.

Correlacionando as habilidades descritas até o momento encontra-se também a capacidade de nos adaptarmos ao meio. E para isso passamos a manifestar nosso comportamento diante das situações emocionais e sociais. Agora estamos falando do comportamento humano, de como reagimos diante dos momentos felizes e tristes, das conquistas e das frustrações, dos ganhos e das perdas. Como estabelecemos nossas relações afetivas e como nos inserimos socialmente.

A maneira como o homem se comporta também depende de uma interação entre fatores neurais e o contexto ao qual ele está inserido. Aspectos neurofuncionais, emocionais e sociais se somam, e aí sim a autonomia recebe um cunho maior, mais complexo e elaborado, que só se estabelece prontamente na fase jovem-adulta. Autonomia para sermos realmente donos do nosso próprio nariz exige discernimento, julgamento, tomada de decisão, iniciativa, planejamento, análise das conseqüências de nossas ações, formulação de objetivos, desempenho afetivo e conduta social (ajuste às normas e regras de um determinado grupo social).

Como podemos ver, são muitas as habilidades envolvidas neste processo, e o que facilita bastante a nossa vida é a capacidade de aprender. E para garantir um bom aprendizado precisamos de uma boa memória. Uma memória que nos possibilite o resgate de informações relevantes, tanto as que nos foram passadas pelo ensino formal como as vivencias em experiências pessoais. Só conseguimos reconhecer todos os estímulos perceptivos e realizar atos motores porque nosso cérebro conseguiu armazenar esses conteúdos.  Sabemos como lidar com determinadas situações porque já passamos por algo semelhante antes e tiramos proveito disso. A memória garante a construção da nossa história pessoal e social.

O entendimento do que é autonomia pode variar entre diferentes culturas, mas é importante salientar que, independente do contexto em que está inserido, o homem é capaz de desenvolver múltiplas habilidades cognitivas se for devidamente estimulado e respeitado em sua individualidade.

 



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