A escravidão do culto ao corpo perfeito
Como a propaganda regula o seu espelho


Por Edwin Karrer


Leia também


Incontáveis linhas de cosméticos, academias, centros de estética, salões de beleza, clínicas de cirurgia plástica, revistas sobre beleza e boa forma... com uma ampla variedade, o mercado da aparência física é um dos que mais cresce atualmente. Negócios nesse ramo proliferam atendendo uma enorme demanda apresentada pela sociedade. Mas o culto à beleza física não é uma novidade do nosso tempo.

Há registros bem antigos sobre a preocupação social com o corpo humano, não apenas por seus aspectos funcionais, mas muito fortemente por sua estética também. Na Grécia Antiga, na busca pela perfeição, a beleza física era altamente valorizada, juntamente com um intelecto desenvolvido. Em uma de suas localidades, Esparta, chegava-se ao extremo de uma eugenia onde os recém-nascidos eram examinados e podiam ser eliminados caso apresentassem alguma deficiência física ou mental, ou ainda se fossem considerados fracos. Apesar de esta prática da época ter motivações militares, guardava relação com um ideal de padrão físico vigente.

Ao longo dos séculos houve variações significativas quanto à importância que se dava à forma física. Na Idade Média, com a supremacia da igreja, predominou um dualismo entre corpo como fonte de pecado e alma como objeto de salvação. O culto à estética corporal foi proibido, assim como a exposição do corpo humano, mesmo nas artes. Somente no período renascentista foram retomados padrões artísticos da Antiguidade, de celebração do corpo e da beleza física.

Entre os século XIX e XX começaram a se disseminar popularmente programas de treinamento físico com um ideal de pessoas fisicamente mais eficientes e saudáveis. Apesar de haver uma proposta inicial de saúde e eficiência física, com o desenvolvimento das indústrias da beleza (moda, cosméticos, etc) a ênfase dos cuidados com o corpo foi recaindo sobre a estética.

 

 

"Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir."

(Honoré de Balzac)

 

Para cada parte coisificada de você, há uma grande variedade de soluções oferecidas: produtos para "embelezar" os olhos, o rosto, o pescoço, o cabelo, as unhas... além de equipamentos de ginástica que prometem modelar especificamente cada grupo muscular, normalmente sem nenhum esforço, enquanto você assiste a TV te dizendo que você precisa comprar outros produtos também.

Além disso, a medicina também acena com soluções cada vez mais seguras e acessíveis para os seus "problemas" estéticos: mude seu nariz, aumente os seios e estique a barriga, pagando em tranquilas prestações. O Brasil é o segundo maior mercado de cirurgia plástica do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

A coisificação e comercialização do corpo como objeto de adoração estão profundamente impregnados no capitalismo. Somos bombardeados regularmente com propagandas sobre nossas "imperfeições" e limitações. Nossas singularidades são convertidas em inadequação quando a publicidade nos mostra soluções milagrosas para nos libertar da grande infelicidade de sermos como somos.

A crueldade do mercado de estética reside no seu modo de operação: a mesma propaganda que anuncia a oferta cria a demanda. Certo, isto não é exclusividade deste mercado, pois uma base fundamental da publicidade comercial é gerar atitude de consumo pela crença de uma necessidade, exista ela ou não. Mas quando se trata do corpo-mercadoria, a autorreferência afeta seriamente a autoestima, cada vez mais sensível a esses estímulos. A mensagem geral é que você é inadequado para os padrões estabelecidos (adivinhe por quem) e não conseguirá ser feliz sem consumir as soluções oferecidas. O bem-estar subjetivo é comprometido ao se interferir na capacidade individual de autoavaliação.

Tudo isto traz consequências sérias à saúde. Por não corresponder à imagem do corpo perfeito que aparece o tempo todo na TV, no cinema, nas revistas e, claro, nos anúncios comerciais, cada vez mais pessoas mergulham em quadros de depressão, perda de libido, transtornos alimentares (anorexia e bulimia) e obsessões diversas.

 

 

"Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual."

(Fernando Pessoa)

 

Apesar de pessoas com o corpo perfeitamente em conformidade com o ideal de beleza atual parecerem carregar uma condição de maior saúde e felicidade, frequentemente esta forma física é alcançada às custas de obsessão, alienação, abuso de drogas (para emagrecer ou para ganho de massa muscular) e sacrifícios físicos como rotinas de exercícios extenuantes ou cirurgias com recuperação dolorosa (física, emocional e financeiramente). E com tudo isso, ainda assombra a angústia de questionar-se se foi o suficiente para ser aceito pelos outros. Como diz o sábio provérbio: nem tudo o que reluz é ouro.

Uma pesquisa realizada na Universidade de Edinburgh, na Inglaterra, ao acompanhar por uma década pessoas que viviam fora dos padrões, tanto de comportamento como estéticos, mostrou que quem não se importa com as opiniões alheias é mais seguro, menos estressado, mais feliz e tende a viver por mais tempo.

Os critérios que definem o que é normal e o que é desvio mudam bastante em função da época e do lugar, mas sempre é possível uma força de resistência contra a exclusão social e a opressão sobre os que estão fora dos padrões da vez.

A posição defendida aqui não é, de modo algum, a do sedentarismo e acomodação. É saudável e altamente recomendável buscar as melhorias físicas possíveis para se viver com mais saúde e disposição. O problema é quando a autoaceitação é prejudicada e isto gera, consequentemente, algum nível de sofrimento.

Enquadrar-se em padrões de grupo é uma necessidade humana, mas quanto mais autonomia pudermos desenvolver em relação à aprovação dos outros para aprovarmos a nós mesmos, maior será nossa qualidade de vida. Se você estiver sofrendo por não conseguir minimamente ter esta autonomia quanto à conformidade estética, um suporte psicológico pode lhe ajudar a redefinir seus critérios e requisitos para viver bem.

 



Este texto pode ser reproduzido sem finalidade comercial, sob as seguintes condições:
- Identificar claramente o nome do autor.
- Criar link para a url desta página ou informar a url por extenso.
- Comunicar o uso enviando e-mail para edwin.karrer@sobrepsicologia.com.br com informações de data e endereço (ou outra especificação) da publicação.


Os comentários aqui no site são feitos via Facebook, por isso você precisa estar logado lá se quiser participar. Certifique-se de que seus comentários não desrespeitem as regras de conduta e postagem contidas em nossos Termos e condições de serviço. Os comentários são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
 

Artigos Vídeos Psicoterapia Orientação Profissional Workshops Contatos