Bandido bom é bandido morto?
Medo, ódio, consensos fabricados e controle social

Por Edwin Karrer


Leia também


Estamos em meio a uma acirrada discussão pública sobre a escalada da criminalidade e a cultura de ódio aos criminosos. Tenho observado impressionado o campo de guerra que as redes sociais se tornaram em função desse conflito dicotômico: de um lado, os defensores de que "bandido bom é bandido morto"; do outro lado, os defensores dos direitos humanos. Aqui abordaremos a questão por outro caminho, indo além de um posicionamento favorável ou contrário à violência contra criminosos.

Durante a maior parte da história, penas deliberadamente dolorosas foram aplicadas a pessoas por diferentes motivos, como cometer um crime ou ser inimigo da pessoa errada. As penas de morte não costumavam apresentar opções pretensamente humanitárias como vemos hoje, por exemplo, ao passarem aquele algodão antes de aplicar a injeção letal ou de oferecerem uma última refeição especial antes de eletrocutar o condenado. Muito pelo contrário, a tortura e a crueldade foram criativamente exploradas ao longo da história para criar mecanismos e processos que pudessem causar sofrimentos extremos e muitas vezes prolongados, com duração de horas ou mesmo dias de agonia.

 

A roda alta é um exemplo da crueldade dos meios de execução medievais. A vítima era amarrada a uma roda de carroça enquanto o carrasco utilizava um pesado martelo para demoradamente esmagar todos os ossos dos seus braços e pernas. Com os ossos completamente esfacelados, os membros já moles eram enroscados na roda e esta era colocada no alto de uma estaca, onde a vítima podia agonizar por dias até morrer.

 

Michel Foucault, em seu excelente e influente livro Vigiar e Punir, nos fala sobre a prática do suplício no século XVIII. A pena violenta não era um ato livre e raivoso do executor. Conforme o caso e a sentença, calculava-se a intensidade e duração do sofrimento infligido antes da morte. O suplício poderia ser mínimo, como no caso de uma decapitação, ou extremo como um lento esquartejamento. Um código jurídico da dor tornava o sofrimento específico: quantas chicotadas, local de aplicação de ferros em brasa, tempo de agonia na fogueira, tipo de mutilação, etc. E o horror do suplício não terminava com a morte do condenado. Os cadáveres podiam ainda, por exemplo, ser arrastados publicamente e expostos à beira de estradas. Os suplícios eram espetáculos públicos e cuidava-se para que tivessem o maior número possível de espectadores, como demonstração de poder do governo absoluto.

É importante ressaltar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos só foi proclamada pela ONU em 1948 e nem tratava-se de um documento com obrigatoriedade legal. E mesmo hoje, com toda uma legislação nacional e internacional baseada em direitos humanos, práticas brutais de tortura e execução ainda são amplamente utilizadas à margem da lei, tanto por populares como pelos representantes do Estado. Então, vivemos ainda num limite tênue entre o que fomos e o que somos hoje como humanidade.

Acho pouco provável que as pessoas que defendem a tortura e/ou execução sumária de criminosos gostariam realmente de viver no tempo da aplicação dos suplícios. Então o que leva tantos de nós a defenderam a barbárie e demonstrarem esse ódio seletivo contra aqueles que consideram ameaçadores? Há pessoas que o fazem por padrões de ódio a que foram expostas durante seu desenvolvimento, tendo sido condicionadas ao ódio. Porém, de modo geral, o que observamos é que as pessoas odeiam por causa do medo.

 

 

"O medo leva à raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento."

(Mestre Yoda, personagem de Star Wars)

 

O medo é uma emoção que todos nós conhecemos bem. Medo de altura, medo da violência urbana, medo de fracassar em uma atividade, medo de não ser aceito, medo da perda, medo da morte, etc. O medo pode ser entendido como uma reação a algum estímulo físico ou mental que represente ameaça. Esta reação inclui alterações fisiológicas estressoras e comportamentos.

No modelo de hierarquia das necessidades criado por Abraham Maslow (a famosa Pirâmide de Maslow), as necessidades de segurança vêm logo acima do nível mais básico de necessidades fisiológicas. Sendo a segurança uma das nossas necessidades mais fundamentais, procuramos manter uma ilusão de ordem e estabilidade neste mundo caótico. Quando essa ilusão é ameaçada por algo ou alguém, buscamos (mesmo que apenas no nível do desejo) eliminar o perigo.

Assim, a morte de um bandido, especialmente quando em público e com elementos de crueldade (um espetáculo que o Estado não pode proporcionar oficialmente), pode ser sentida por parte das pessoas como alívio e reestabelecimento da ordem, ao invés de chocar e causar piedade. É a consumação da vingança da "sociedade boa" sobre a "sociedade má". O quanto cada pessoa reage e usufrui desse processo depende bastante das formas de enfrentamento que consegue desenvolver para lidar com a indignação e a insegurança. Então, antes de sair excluindo seus amigos de redes sociais por considerá-los bárbaros desumanos ou por considerá-los imbecis protetores de bandidos, entenda que cada qual encontra caminhos muito particulares para elaborar essas questões.

 

 

"A vingança é um ato que se quer cometer quando se está impotente e porque se está impotente."

(George Orwell)

 

É interessante notarmos que há uma grande seletividade nessa percepção de ameaça. O ódio que advém do medo requer um objeto para onde possa ser direcionado, um "outro", uma personificação, uma cara. Então são fabricados consensos sociais sobre quem são as classes perigosas e os sujeitos estigmatizados. Digo "fabricados" por que esses consensos não surgem de forma natural, mas são fabricados e alimentados pelos veículos de comunicação, como fala muito bem a respeito Noam Chomsky. Transpondo para nossa realidade próxima, pense em como é conveniente para um governo perdendo o controle da situação jogar o povo contra o povo e abafar assim qualquer movimento revolucionário ou minimamente reivindicatório.

Segundo Baruch Spinoza, os afetos tristes como medo e ódio diminuem nossa potência de agir, possuindo uma função política de nos colocar em estado de servidão quando sob seus efeitos. Para Giles Deleuze e Félix Guattari, o capitalismo utiliza a comunicação para restabelecer um regime de servidão generalizada. Então podemos destacar muito bem que medo e ódio, além de guardarem uma profunda relação causal, podem ser produzidos e direcionados pela mídia como dispositivos de controle social, ocupando papel fundamental na dinâmica política e gerenciamento das massas.

O Sistema tenta nos jogar uns contra os outros, nos mantendo ocupados demais para prestarmos atenção naqueles que perpetuam este estado de coisas. Jogam classe média contra pobre, asfalto contra favela, brancos contra negros, polícia contra o restante do povo, povo contra manifestantes (que são do povo e pelo povo), pessoas indignadas contra "esse pessoal dos direitos humanos", homens contra mulheres, heterossexuais contra homossexuais, torcedores de um time fisicamente contra torcedores dos demais... forçam uma competição selvagem entre colegas de trabalho, disputa de status entre vizinhos... Quanto mais estivermos separados e lutando uns contra os outros, mais eles estarão sossegados, fora do foco da revolta social que vem ganhando força globalmente.

 

 

"Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as pessoas que estão oprimindo."

(Malcolm X)

 

Vejo uma sociedade fragmentada em múltiplos combates contra si mesma, enquanto nossos verdadeiros inimigos estão sentados lá na pontinha da pirâmide social, assistindo de camarote o circo pegar fogo. As elites financeiras, mega corporações, bancos e outros dos principais agentes da dinâmica de exploração seguem vampirizando a grande massa humana e prosperando às custas de nossos tormentos coletivos e individuais. Como barreira protetora, possuem a classe política como seus testas de ferro. Não é a toa que a cada ano a mídia aumenta a cobertura dos casos de corrupção política. Deixando os políticos em evidência como se fossem a verdadeira raiz do problema, os donos do mundo permanecem camuflados para a maior parte da sociedade.

O filósofo Slavoj Zizek sugere que os problemas que nós temos hoje existem porque nós estamos fazendo as perguntas erradas. Então eu proponho uma pergunta para sua reflexão, diferente da que intitula este texto: quem são, afinal, nossos verdadeiros inimigos?

 



Este texto pode ser reproduzido sem finalidade comercial, sob as seguintes condições:
- Identificar claramente o nome do autor.
- Criar link para a url desta página ou informar a url por extenso.
- Comunicar o uso enviando e-mail para edwin.karrer@sobrepsicologia.com.br com informações de data e endereço (ou outra especificação) da publicação.


Gostou desta página?

Então acesse abaixo e
compatilhe com seus amigos
onde você desejar
 

Os comentários aqui no site são feitos via Facebook, por isso você precisa estar logado lá se quiser participar. Certifique-se de que seus comentários não desrespeitem as regras de conduta e postagem contidas em nossos Termos e condições de serviço. Os comentários são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
 

Artigos Vídeos Psicoterapia Orientação Profissional Workshops Contatos