Casamento + filhos = felicidade?
O mito do comercial de margarina


Por Edwin Karrer


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Nós vivemos nossas vidas acreditando que a liberdade de pensamento é inviolável. Ocorre que as coisas não são tão simples assim. Desde o início do nosso desenvolvimento, nós nos constituímos a partir do outro: os esquemas sociais, juntamente com as opiniões, atitudes e comportamentos alheios, formam uma base referencial para a nossa visão de mundo.

Um destes esquemas sociais é o caminho quase compulsório de casar e ter filhos. Esta pressão social começa a se manifestar normalmente na forma de perguntas familiares a quem está namorando: "E aí, quando sai o casório?". Para quem opta pelo casamento, os radares da família e amigos já estão ligados logo após a lua de mel e não demora para aquela tia perguntar durante um almoço de família: "E aí, quando seus pais vão ganhar um netinho?". O mecanismo da coisa não dá margem a escolha: não se questiona se, mas quando.

Os comerciais de margarina são um grande símbolo do modelo de família perfeita e feliz. Acontece que a vida não é um destes comerciais. Tanto estar em um relacionamento afetivo como ter filhos, ao invés de serem caminhos para a felicidade, são experiências que apresentam um mundo de altos e baixos, incluindo uma série de desafios e complicações.

Muitos solteiros sofrem consideravelmente pelo seu status de relacionamento. Este sofrimento, frequentemente, não se dá pela falta de alguém, mas por um sentimento de inadequação e desvalorização. Para estas pessoas, "ter" alguém significa adequação social, enquanto estar sozinho parece carregar um estigma de não ser bom o suficiente para conseguir alguém.

Uma certa independência emocional é necessária para se entender que a nossa felicidade não depende do outro. Expressões como "cara-metade" e "alma gêmea" revelam a popular fantasia de que alguma pessoa pode ser capaz de completar o que falta em nós.

Em grande parte, esta busca desesperada para encontrar alguém reflete uma grande dificuldade de estar consigo mesmo. Um indicativo disto é prestar mais atenção a casais felizes quando se está solteiro e prestar mais atenção a solteiros felizes quando se está comprometido. O único resultado disponível para quem busca fora o que só pode ser encontrado dentro de si é a insatisfação permanente.

 

 

"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade."
(Carlos Drummond de Andrade)

 

É preciso que se acabe com a ideia de que uma pessoa é incompleta e depressiva por viver sozinha. Alguém com suficiente independência emocional pode perfeitamente ser solteiro por escolha própria, dedicando-se aos seus projetos pessoais e sentindo-se realizado. Sou um grande fã do maestro Tom Jobim, mas penso que ele estava equivocado ao sentenciar que "é impossível ser feliz sozinho".

Pode haver quem alegue que a ideia de encontrar um parceiro e gerar descendentes é um chamado para satisfazer a necessidade evolucionista de preservação da espécie. Ora, em um mundo com mais de 7 bilhões de pessoas, cuja ciência possui razoável domínio sobre a reprodução humana, será que optar por não ter filhos é motivo para alguém se sentir um sabotador do futuro da humanidade? Eu não vejo como isto pode fazer sentido, considerando que a população mundial cresce em progressão geométrica (aumentamos em 1 bilhão somente entre 1998 e 2010) e caminhamos rumo a uma superpopulação, com sérias consequências futuras previstas. Apesar disto, a nossa sociedade, mesmo que de forma velada, trata de forma bastante crítica as pessoas que optam por não ter filhos, tachando-as de egoístas.

Na verdade, dependendo da pessoa, não ter filhos pode ser uma decisão altruísta e tê-los pode ser uma atitude egoísta. Muita gente tem filhos apenas para se adequar a expectativas familiares, sentir-se ajustado socialmente, cumprir um papel de gênero, tentar salvar um relacionamento falido ou na esperança de que aquele novo ser resolva seus problemas e dê sentido à sua vida. Não trazem um filho ao mundo como um puro ato de amor, mas como uma tentativa de remendar o vazio de sua própria existência. O mais provável nestes casos, além da frustração de descobrir que ter um filho não equivale a uma terapia, é que a pessoa não desempenhe o papel de mãe ou pai tão bem quanto alguém que assume este papel por genuína vocação parental. Prestariam melhor serviço à Vida se fossem dedicar-se ao trabalho, estudo ou causas sociais.

 

 

"Não deve gerar filhos quem não quer dar-se ao trabalho de criá-los e educá-los." (Platão)

 

O que se pode concluir é que não há melhor ou pior entre estar sozinho ou casado, com ou sem filhos. Qualquer uma destas configurações oferece possibilidades de momentos felizes e infelizes, mas nenhuma vem com certificado de garantia. Seja qual for o caminho que você escolha seguir, o mais saudável é só incluir uma pessoa (cônjuge ou filho) em sua vida se for para agregar valor à vida um do outro, não para se adequar socialmente ou para preencher um vazio interior. A responsabilidade pela sua própria felicidade é absolutamente pessoal e intransferível.

 



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