Como identificar um trabalho significativo
Dá pra acordar feliz na segunda-feira?


Por Edwin Karrer


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Você sente que está trabalhando atualmente naquilo que gostaria? Caso sua resposta seja "não", antes de continuar a leitura, pare por uns instantes, feche os olhos e faça uma reflexão sobre os motivos de estar se submetendo a isso.

Grande parte das pessoas gostaria de mudar de trabalho e talvez você esteja passando por isso atualmente. Os motivos da insatisfação podem ser os mais variados, mas creio que o fator mais impactante para a insatisfação profissional seja um trabalho não significativo.

Sabemos que o retorno financeiro do trabalho é necessário para o sustento e sobrevivência da maioria das pessoas. Porém, cada vez mais tomamos como real necessidade o nosso desejo pelo supérfluo. Na sociedade do consumo e do espetáculo, somos cada vez mais condicionados a fazer o que for necessário para alcançar e manter um determinado poder aquisitivo. O Sistema leva a sociedade à adoração do ter (ou do aparentar) em detrimento do ser, para que as pessoas sejam mantidas em uma condição de servidão voluntária, trabalhando o dia inteiro em algo que detestam para comprar coisas das quais não precisam.

Esse modelo em que as pessoas trabalham tantas horas por dia em algo que não as realiza tem ainda outra função perversa na alimentação do Sistema: o tempo que resta para a pessoa "viver", apenas à noite e nos finais de semana, é tão curto que há uma acentuada tendência de se gastar muito com entretenimentos e supérfluos, na tentativa de obter uma compensação pessoal no seu escasso tempo livre. Com isso, a complexidade da vida aumenta sem parar. As contas vão se avolumando e pedem cada vez mais horas de trabalho (na tentativa de uma promoção ou de apenas manter o emprego) e maiores tentativas de se compensar, no ciclo vicioso entre trabalho sem sentido e alto consumo de supérfluos.

Nesse modo adoecido de funcionamento, a remuneração passa a ser vista como o fator mais importante, ao invés do trabalho em si e seu significado. Mas o que seria, afinal, um trabalho significativo? Considero os 6 pontos abaixo como suas principais características:

 

1- Não parece ser trabalho: o trabalho significativo é prazeroso e te envolve de tal modo que você nem sente o tempo passar, chegando a esquecer cansaço, fome, etc. Lembra quando na sua infância, mesmo após horas de brincadeira, era muito ruim ter que parar (muitas vezes sob ameaças da mãe) o que estava fazendo pra tomar banho e comer? Um trabalho significativo deve resgatar aquele tipo de experiência (mas, por favor, não deixe de tomar banho).

2- Aproveita suas habilidades: ao invés de ser restrito e repetitivo, um trabalho significativo aproveita adequadamente as suas habilidades para concluir com êxito uma boa diversidade de atividades.

3- Proporciona autonomia e controle: é importante ter algum nível de autonomia e controle sobre o modo como você realiza seu trabalho, possibilitando aproveitamento do seu potencial criativo.

4- Permite feedback de desempenho: deve dar condições para que você avalie quão bem seu trabalho está sendo realizado.

5- Alinha com seus valores e crenças: para que um trabalho seja significativo pra você, ele deve estar alinhado com seus valores e crenças pessoais, de modo que não haja conflitos nesse nível.

6- Tem impacto em um contexto maior: um trabalho significativo não deve servir apenas para enriquecer o patrão ou dar um benefício imediato a quem o realiza. Para ser efetivamente significativo, deve fazer parte de algo maior, como agregar valor à vida de outras pessoas, à sociedade ou relacionar-se a alguma causa ou missão relevante.

 

 

"Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida." (Confúcio)

 

Steve Jobs tinha o hábito de se perguntar regularmente: "Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu iria querer fazer o que vou fazer hoje?" Quando a resposta era "não" por muitos dias seguidos, ele sabia que precisava mudar algo.

Quando pensamos no gap entre a vida que temos hoje e a que gostaríamos de ter, é possível que surjam arrependimentos em relação ao passado, por hábitos, rotinas, coisas que fizemos ou que negligenciamos, que poderiam ter nos aproximado hoje da vida desejada. Assim sendo, um exercício que gosto de fazer frequentemente é perguntar a mim mesmo: de que eu me arrependeria daqui a 5 ou 10 anos por estar fazendo ou deixando de fazer hoje? Praticado regularmente, esse exercício costuma ter um forte efeito mobilizador. Recomendo que você faça isso incluindo questionamentos sobre sua atuação profissional.

Ok, você pode estar dizendo neste momento: "Ah, falar é fácil, na teoria é tudo bonito, mas na prática a coisa é diferente!" Não, eu não estou afirmando que uma transição de carreira seja fácil. Por experiência própria, afirmo que pode ser bem difícil. Mas acredito firmemente que seja mais fácil do que chegar amargo ao final da vida, remoendo especulações sobre como seria se aquele passo tivesse sido dado. Creio que há em cada um de nós um componente heroico que nos autoriza a correr atrás de nossos sonhos, mesmo sabendo que vão custar suor e lágrimas.

Antes da minha história de amor com a Psicologia, eu tive uma formação e carreira na área tecnológica, tendo trabalhado por mais de 10 anos em ambientes corporativos, sempre em empresas de destaque em suas respectivas áreas. Ao longo dos anos a insatisfação foi tomando conta e me deixando cada vez mais abatido. Antes de encerrar essa parte da minha vida, eu vinha atuando como gerente de projetos e atendendo grandes clientes no Brasil. No entanto, minha vida estava esvaziada de sentido e eu estava mais pra figurante da série The Walking Dead. Eu já estava sabotando meu trabalho, que por sua vez estava acabando comigo. Desse modo, cheguei a um ponto limite onde a mudança não podia mais ser adiada.

Com minha experiência, pude constatar que dar duro no trabalho só representa um fardo (ou até mesmo uma tortura) quando o trabalho não é significativo. Hoje em dia, trabalhando como empreendedor, minha carga de trabalho não é menor. Na verdade, hoje não faço distinção de horário comercial, fim de semana ou feriado. Recentemente, cheguei a virar 40 horas "no ar" para fechar questões importantes e urgentes de trabalho. Não por determinação de um chefe (já que sou um dos donos da empresa onde trabalho), mas sim por que aquilo fazia muito sentido pra mim. Em uma situação pontual como essa, o cansaço (físico e mental) chega, é fato; mas o estado emocional é de vibração. Esse estado prazeroso de total entrega e engajamento com a atividade realizada — chamada por Mihaly Csikszentmihalyi de Flow (ou estado de fluxo) —  me dá a certeza de ter feito algo maravilhoso pela minha vida ao realizar minha transição profissional, mesmo sendo uma mudança radical e com desafios bastante pesados.

 

 

"Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida." (Platão)

 

Talvez você esteja vivendo neste momento uma situação de insatisfação profissional, sem fazer nada em relação a isso. Estou ciente das desculpas que podemos nos dar para permanecer na zona de conforto e sei que frequentemente nos paralisamos pela incerteza e pelo medo da mudança, que nos fazem tomar dificuldades como se fossem impossibilidades. O que ocorre em muitos casos (como no meu) é que podemos empurrar essa questão com a barriga até que ela se torne insustentável e exija uma mudança emergencial, sem o devido preparo que uma transição profissional requer. Isso traz uma grande dose extra de dificuldade, acredite. Então, ao invés de esperar a vida inteira por um mágico momento favorável (que nunca virá), estabeleça logo um plano de mudança, com metas, identificação de requisitos e definição de prazos. Nunca se esqueça de que o tempo não para e a vida não espera.

Se a sua resposta à pergunta do início deste texto foi negativa, até quando você vai se submeter a uma servidão voluntária enquanto a sua vida passa? Caso você tenha dificuldade para identificar novos caminhos mais favoráveis, poderá se beneficiar de uma reorientação profissional realizada por um psicólogo capacitado para este tipo de trabalho.

 



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