Como você está alimentando sua mente?
Considerações sobre conteúdos consumidos na Internet


Por Edwin Karrer


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Há uma máxima segundo a qual "você é o que você come". Bem, considerando do ponto de vista orgânico, isto faz sentido. Se ingerimos alimentos saudáveis, nossa saúde tende a ser melhor. Se só comemos besteiras, nossa saúde acaba sendo prejudicada.

De forma análoga ao que acontece à nossa condição física, nossa condição psíquica é diretamente influenciada pelo que consumimos em termos de informações e vivências. Se alimentamos nossa mente com conteúdo edificante, tendemos à ampliação de nossos potenciais e à uma condição interna mais equilibrada. Se consumimos predominantemente conteúdos depressivos, superficiais e alienantes, o que estaremos fazendo de nós mesmos? A qualidade da informação circulante, especialmente na Internet e na TV, é uma grande causa de adoecimento social e individual.

Muitas vezes me pego refletindo se não estamos precisando nadar contra uma correnteza de involução. Na sua condição mais primitiva, o homem ocupava-se apenas de dois instintos básicos: sobreviver (incluindo enfrentar animais e inimigos) e reproduzir-se (conseguir alguém para copular e gerar descendentes). Em termos mais simples: lutar e transar. Não é isto que vemos tomar cada vez mais espaço em nossa cultura, a violência e o erotismo promíscuo?

Esta suposta correnteza de involução da qual eu falo foi representada de forma fantástica em uma imagem que teve grande circulação nas redes sociais, com dezenas de variações e adaptações. Trata-se de uma divertida brincadeira com a tradicional imagem representativa da evolução humana, que originalmente mostra diversas espécies ancestrais até o Homo sapiens (nós humanos). Se alguém conhecer o autor desta imagem, favor me informar, para que eu possa parabenizá-lo e dar o devido crédito aqui. Você confere abaixo como ficou a "nova versão" do esquema da evolução humana, adequada ao nosso tempo.

 

 

Infelizmente, nossa sociedade encontra-se saturada de indivíduos em que os interesses mais primitivos e embrutecidos parecem prevalecer sobre quaisquer dos valores humanos superiores desenvolvidos ao longo dos séculos. E pela regulação de oferta e demanda das mídias de massa, este é o cardápio do dia.

A Internet proporciona um acesso tão amplo e rápido às mais diversas informações, que cria possibilidades riquíssimas de compartilhamento e aprendizado. Mas como efeito colateral deste volume e velocidade temos uma grande saturação, fragmentação e superficialidade das informações.

A ênfase no uso da Internet está no ritmo frenético em que as informações são alternadas, havendo consumo de toneladas de conteúdo sem foco e aprofundamento. Atire a primeira pedra quem nunca deixou várias abas do navegador abertas simultaneamente. A atenção flutua superficialmente entre incontáveis fontes de estímulo: visitamos diversos sites ao mesmo tempo em que ouvimos música (ou a TV ligada ao lado), usamos comunicadores instantâneos com várias conversas paralelas e ainda trabalhamos ou estudamos. A palavra de ordem é multitarefa!

Usar a Internet para consumir informações de baixa qualidade e fragmentadas é como se você fizesse suas refeições diárias em um rodízio de salgadinhos e petiscos: você se sentiria cheio, mas estaria pessimamente alimentado e pondo em risco sua saúde.

O grande e rápido sucesso das páginas de humor nas redes sociais também trazem um indicativo importante. Certos tipos de humor que tem conquistado a predileção de muitas pessoas apontam para um grande empobrecimento cultural e intelectual. Ao invés de se buscar formas originais, inteligentes e bem elaboradas de humor, cada vez fazem mais sucesso cópias de cópias de cópias de criações toscas. Um dos principais exemplos disto são os chamados memes de Internet, repletos de desenhos que até uma criança pequena é capaz de fazer melhor. Na medida em que este material vai tomando conta da Internet, vai ficando claro que atendem à demanda de muitas pessoas que simplesmente não querem pensar nem consumir algo mais elaborado.

É claro que é fundamental ter momentos de descontração e sabemos que rir faz muito bem à saúde. Mas que tipo de humor você anda buscando e de que você anda rindo?

 

 

"E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero..."

(Frejat, na música Amor pra recomeçar)

 

Outro grande problema da Internet, pelo seu caráter ao mesmo tempo democrático e caótico, onde qualquer um pode publicar qualquer coisa, é a quantidade de informações falsas, distorcidas ou contendo dados errôneos. Muito lixo publicado online consegue conquistar uma credibilidade presumida ao atribuir como autor um nome com reconhecida autoridade ou apenas mencionando palavras como “segundo pesquisa realizada” (e tente achar a tal pesquisa pra você ver...).

Não engula nada como verdade absoluta a priori. Questione, submeta tudo ao seu bom senso e pesquise em múltiplas fontes de reconhecida credibilidade. Aprimore sua autonomia de filtrar as informações antes de digeri-las. Não se deixe impressionar pelo nome de autor atribuído a um texto. Afinal, como disse Moisés no momento em que abria o mar vermelho: “Um dos grandes problemas das citações na Internet é saber se a atribuição de autoria está correta”. 

Estamos em uma fase de transição sem precedente na história da humanidade, em termos de quantidade e velocidade de mudanças. Temos diversas gerações convivendo, cada qual mantendo um relacionamento distinto com a tecnologia e com os gigantescos fluxos de informações que nos bombardeiam ininterruptamente. Levará algum tempo até alcançarmos uma condição de equilíbrio, onde possamos usufruir da tecnologia da informação minimizando satisfatoriamente seus efeitos colaterais.

Naturalmente, sempre haverá diferenças individuais quanto a gostos e preferências. A qualidade dos conteúdos não passa por um padrão a ser seguido por todos, de modo algum. Mas em todos os casos vale a pena questionar se as informações que você vem consumindo promovem seu crescimento ou estagnação, conscientização ou alienação, paz interior ou perturbação. Pense nisto antes do próximo clique.

 



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