Dá pra ter amizade com ex?
Desafios de manter uma relação em outro formato

Por Edwin Karrer


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Então, chega o dia de dizer adeus. Ou não. Para muita gente, manter uma amizade com um(a) ex após o fim de um relacionamento é uma opção viável, enquanto outras pessoas não conseguem sequer imaginar tal situação. Seja como for, creio que todos sentem, em algum grau, um certo estranhamento com a experiência de deletar totalmente de sua vida alguém que passou um bom tempo ao seu lado (às vezes muitos anos) compartilhando uma vida íntima a dois.

Uma das questões com mais peso quando falamos em converter uma relação amorosa em uma relação amistosa é o fato de não haver perfeito sincronismo quanto ao (des)investimento afetivo. Em uma separação, costumam ficar bem demarcados os papéis de quem está terminando tudo e de quem está sendo deixado. A sensação é de que há fatalmente dois lados opostos na história: um lado que entra com o pé e outro lado que entra com a bunda.

Mesmo quando o término parece ser consensual, é muito improvável que ambos tenham decidido simultaneamente pela separação. Quando uma das partes toma a iniciativa e a outra se sente aliviada por concordar, é que já vinha empurrando a situação com a barriga, possivelmente até sabotando a relação, à espera de fazer o outro pedir pra sair. E mesmo assim, ainda pode haver um sentimento conflitante: por um lado, atingiu-se o que era desejado; por outro, há no íntimo um vazio por ter perdido tanto seu valor para o outro a ponto de ser dispensado.

A dificuldade de virar a página pode ser tamanha, que sabemos — tanto pela experiência clínica como pela observação do cotidiano — que é a coisa mais normal hoje as pessoas monitorarem o ex através das redes sociais por um bom tempo. Há um tipo de comunicação pós-separação, onde cada um publica indiretas e finge que não lê as do outro. É como se fosse uma espécie de moratória emocional, onde se adia o sofrimento de uma ruptura definitiva, desabafando as questões que tenham ficado engasgadas.

Além disso, são acompanhados os "sinais de recuperação" da outra pessoa, o que normalmente é uma fonte de sofrimento para as duas partes. É comum vermos nos perfis online de pessoas que se separaram uma abundância de fotos e comentários indicando uma vida social agitadíssima, como se estivessem mais felizes do que nunca. Competem entre si, ambos infelizes pela própria situação e fazendo-se mutuamente mais infelizes, cada qual magoado pela crença de ter sido facilmente esquecido pela outra pessoa.

Enfim, nenhuma separação é um passeio no parque; é necessário vivenciar um processo de luto e se reestruturar para cicatrizar a ferida de ter uma parte de sua história arrancada de si.

Na tentativa de um casal tornar-se dois amigos que convivem, há também a dificuldade de se fazer um downgrade na intimidade. É muito estranho cumprimentar apenas com um tímido beijo no rosto alguém com quem você já experimentou todas as posições do Kama Sutra e ainda criou algumas novas. Saber que há (e respeitar) limites no contato físico é um desafio crítico para a manutenção deste tipo de amizade, especialmente quando um ou ambos já iniciaram relacionamentos com outras pessoas.

 

 

Como muita gente tem alguma experiência bem sucedida de amizade com ex ou, pelo menos, conhece alguém que a tenha, então o verdadeiro questionamento não deve ser se isto é possível, mas sim em que circunstâncias.

Para que seja viável manter uma amizade após um relacionamento amoroso, este precisa ter terminado em clima de paz e tranquilidade, sem maiores mágoas ou rancores, de ambas as partes. Se atendendo este requisito já é um desafio manter este tipo de amizade, quando uma das partes guarda intensos sentimentos negativos pela outra isto torna-se praticamente impossível.

Os atuais parceiros de cada um devem ser capazes de aceitar este contato com um(a) ex numa boa, sem desconforto. É compreensível que, para muitas pessoas, esta situação represente um fantasma rondando com o risco de uma recaída ou flashbacks ocasionais. Isto me lembra da seguinte pérola que ouvi em certa ocasião: "Ex é igual McDonald's: você sabe que não deve, mas acaba comendo de vez em quando". Pode ser engraçado num primeiro momento, mas quando isto é tomado como "filosofia de vida", o mais provável é que haja bastante mágoas e decepções.

Mesmo que não haja recaídas, outro ponto importante a se considerar é que a pessoa que está com você hoje não vai lhe ver simplesmente em companhia de uma inocente amizade, mas sim convivendo com alguém que lhe conhece do avesso e sabe de cor cada detalhes do seu corpo e da sua intimidade. Não é propriamente o pensamento mais bacana para alguém digerir. Então é fundamental envolver sua nova escolha amorosa no gerenciamento da situação e nas tomadas de decisão quanto aos limites deste contato, para minimizar os riscos de problemas para todas as partes envolvidas.

Ambos devem estar bem resolvidos quanto ao término. Se um dos dois ainda conservar sentimentos que extrapolem a amizade, esta será apenas um disfarce para a esperança velada de reconquistar a pessoa amada. Boa parte das amizades pós-separação tem início com base nesta atitude autoflagelante, o que é garantia de tristeza e frustração decorrentes de uma tentativa destinada ao fracasso.

Podemos concluir que uma efetiva amizade (com convívio frequente) entre duas pessoas que já tiveram um relacionamento amoroso pode dar certo sim, mas exige um pacote de circunstâncias não muito fáceis de se reunir.

E você, o que pensa disto? Tem alguma experiência bem sucedida de amizade com ex?

 



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