Desafios no diagnóstico do TDAH
Desatenção e impulsividade sempre indicam o transtorno?


Por Cláudia Capitão


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Sempre que tenho acesso a literatura sobre transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH)  ou recebo indicação para avaliação neuropsicológica cuja hipótese diagnóstica é TDAH, me pergunto como lidávamos com essas crianças e adolescentes, hoje tão facilmente “diagnosticados” pelos profissionais da saúde e da educação, comparados há umas duas décadas atrás.  Lembro-me de colegas que sempre recebiam suspensão ou eram “convidados” a se retirar da sala de aula por indisciplina, ou de outros que sempre eram questionados pelos professores na tentativa de fazê-los “aterrissar” na aula. Naquela época não se falava em nenhum transtorno neurológico que pudesse justificar tais comportamentos. Mas o fato era que esses colegas apresentavam uma constância neste padrão de comportamento, mas nenhum fazia qualquer tipo de tratamento medicamentoso ou era rotulado como portador de qualquer distúrbio.

Com o avanço das pesquisas científicas e farmacêuticas, atualmente o que se vê é uma população de crianças e adolescentes sendo medicados para melhorar seu nível atencional ou atenuar sua inquietude e impulsividade.  Mas afinal, quando a dificuldade de prestar atenção nas coisas, a dificuldade em ficar quieto durante a realização de uma tarefa e a tendência a fazer ou dizer as coisas sem pensar indicam a presença de um transtorno neuropsiquiátrico?

O diagnóstico do TDAH é fundamentalmente clínico, realizado com o auxílio de sistemas classificatórios como o DSM-IV ou a CID-10, ambos manuais que seguem padrões internacionais amplamente utilizados para o diagnóstico de doenças neuropsiquiátricas.

 

 

O transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um dos mais frequentes transtornos neuropsiquiátricos da infância, acometendo 5,29 % das crianças em todo o mundo. (Polanczyk e Rohde, 2007)

 

O DSM-IV propõe a necessidade de pelo menos seis sintomas de desatenção e/ou seis sintomas de hiperatividade/impulsividade para o diagnóstico, e tanto o DSM-IV quanto a CID-10 incluem ainda um critério quanto a idade, ressaltando que o início dos sintomas devem ocorrer antes dos 7 anos , não podendo estar correlacionado a nenhuma outra condição neuropsiquiátrica, como transtornos de ansiedade, transtornos do desenvolvimento infantil ou de comportamento, ou que possam ser justificados por uma dificuldade de aprendizagem e pela presença de problemas emocionais, muitas vezes difíceis de serem identificados sem uma avaliação psicológica criteriosa.

Quando falamos em diagnóstico clínico devemos levar em consideração o que se observa no contexto da criança, ou seja, no âmbito familiar, escolar e social, evidenciando desta forma prejuízo significativo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional. Desta forma o diagnóstico deve implicar na adoção o mais precoce possível de procedimentos terapêuticos na área neurológica, psicológica, psicopedagógica e social.

Pode-se subdividir o TDAH em três tipos: desatento, hiperativo/impulsivo e misto (ou combinado). Dentre as características apresentadas podemos destacar:

  • Apresentar dificuldade para manter a concentração durante a realização de tarefas (escolares, de trabalho ou lúdicas);
  • Mostrar-se facilmente distraído a estímulos irrelevantes à tarefa;
  • Apresentar dificuldade em organizar as atividades rotineiras;
  • Evitar tarefas que exijam maior esforço mental;
  • Perder objetos necessários para realização de atividades;
  • Mostrar-se distraído em conversas;
  • Demonstrar agitação, como ficar mexendo as mãos e/ou os pés e/ou mudando a toda hora de posição;
  • Dificuldade em permanecer sentado;
  • Dificuldade para brincar ou  realizar silenciosamente as tarefas;
  • Responder de forma precipitada as perguntas, até mesmo antes de serem concluídas;
  • Ter dificuldade em aguardar a sua vez e agir sem pensar nas consequências dos seus atos.

Embora alguns sintomas bem frequentes tenham sido apontados, devemos nos atentar para o fato de que os mesmos não podem ser analisados isoladamente e nem associados ao TDAH sem uma avaliação profissional minuciosa, pois vários fatores que podem interferir na nossa capacidade de sustentar a atenção, de inibir estímulos do ambiente, permitindo assim interfiram na realização de tarefas importantes, o mesmo valendo para inquietude, agitação e respostas impulsivas no nosso cotidiano.

Na dúvida, ou precisando de maiores informações, recorra a ajuda profissional especializada. Em muitos casos o que se observa é uma facilidade enorme em se fazer diagnósticos sem respaldo técnico suficiente para tal, banalizando o sofrimento psíquico, que passa a ser percebido como transtorno neuropsiquiátrico, enaltecendo a medicalização e atendendo desta forma a expectativa dos pais e das escolas em apostarem num distúrbio para justificar suas falhas, em vez de bancarem o “transtorno” de ter que mudar suas condutas em relação a educação dos seus filhos  ou às metodologias de ensino.

 



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