Dinheiro, felicidade e psicoterapia
Você sabe o que lhe faz feliz?

Por Edwin Karrer


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Antes de prosseguir neste texto, pare agora por um instante e pense: o que você acredita que lhe tornaria mais feliz? Sério. Pare e dedique um tempinho para pensar a respeito e responder a essa questão.

De modo geral, nós queremos e buscamos ser felizes, independente dos requisitos e caminhos adotados por cada um. Tais requisitos e caminhos são definidos por nossas crenças e escolhas pessoais. Expressões condicionais como "quando" e "se" costumam estar presentes nas reflexões sobre felicidade de grande parte das pessoas e podem denunciar crenças disfuncionais sobre o seu próprio bem-estar. Quando você respondeu ao questionamento inicial deste texto, talvez tenha pensado em coisas como: "quando eu casar", "se eu ganhar na loteria", "quando eu comprar meu apartamento", "se eu passar naquele concurso", "quando eu conseguir perder 10 quilos", "se meu salário aumentar", etc. Acontece que a felicidade não é um destino ou algo que está esperando em algum lugar para ser alcançado, mas um processo a ser desenvolvido continuamente.

Quando falo de caminhos para a felicidade, estou me referindo a estratégias para promoção da felicidade. Como tantas pessoas não se consideram significativamente felizes, devemos admitir que nem toda estratégia funciona nesse sentido. Tentar obter mais dinheiro é uma das estratégias de felicidade mais adotadas e uma das mais equivocadas.

Sabe por que é tão difícil acreditar que dinheiro não traz felicidade? Por que, de algum modo, ele traz! O problema é que por experimentarmos satisfação ao ter mais dinheiro em dado momento, tendemos a acreditar equivocadamente numa relação direta entre dinheiro e felicidade.

Acontece que o dinheiro só traz um aumento consistente e duradouro de felicidade quando tira a pessoa de um estado de privação, como alguém que sai de uma condição miserável e passa a ter suas necessidades básicas atendidas. Uma vez que essas necessidades estejam atendidas, a satisfação proporcionada por acréscimos financeiros supérfluos é efêmera. Por mais que alguém acredite que terá o paraíso na Terra ao alcançar determinada condição de riqueza, a euforia pelos novos prazeres, luxos e confortos tem duração limitada.

 

 

"Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos."

(Vicente de Carvalho)

 

Mas se alcançamos o que tanto desejávamos, como é possível que essa satisfação seja tão passageira? Philip Brickman e Donald Campbell chamaram de "esteira hedonista" o fenômeno pelo qual nos acostumamos com as situações, intercalando insatisfação e satisfações pontuais de curta duração. Na prática, nós simplesmente nos acostumamos com as nossas condições de vida, assim como nos acostumamos, por exemplo, com a temperatura da água da piscina.

Desse modo, pegando o tão popular sonho da loteria, após algum tempo a euforia inicial dá lugar à uma percepção de normalidade. Um supercarro e uma baita mansão, causadores de um contentamento incrível no início, com o tempo acabam se tornando tão comuns quanto eram o carro popular e o apartamento simples anteriormente possuídos. Nosso referencial do que é extraordinário muda e passa a ser preciso mais para voltar a sentir aquela euforia. Ou seja, a estratégia de apostar sua felicidade no aumento de dinheiro pode ser comparada a tentar alimentar um monstro insaciável.

Após esse entendimento, que outras estratégias podem ser mais favoráveis do que "mais dinheiro" para promoção da felicidade? Quero ressaltar aqui uma estratégia específica para a felicidade: a psicoterapia.

Segundo o trabalho de pesquisadores das universidades de Warwick e Manchester, a psicoterapia é mais efetiva em aumentar a felicidade do que simplesmente obter mais dinheiro. Foram comparadas situações de aumento do bem-estar pela psicoterapia e pelo ganho repentino de dinheiro (desde aumentos salariais até prêmios de loteria). O que os pesquisadores verificaram foi que o aumento de bem-estar proporcionado pela psicoterapia somente era superado por um ganho financeiro muitas vezes maior do que o investimento realizado. O aumento de bem-estar ao longo de um período de psicoterapia no valor de £800,00 exigiria cerca de £25.000,00 de ganho financeiro para proporcionar um aumento equivalente de bem-estar. Isso significa (em termos econômicos) que a psicoterapia pode ser até 32 vezes mais efetiva do que o dinheiro para aumentar a felicidade.

Vivemos em uma sociedade cada vez mais adoecida, que superestima a importância do "ter" e subestima a importância do autoconhecimento e cuidados com a saúde psicológica. Cabe a você contestar as crenças disfuncionais que lhe induzem ao erro e ao sofrimento, buscando caminhos mais favoráveis para sua realização e bem-estar de forma consistente e duradoura.

 



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