Do QI ao QE
Inteligência Emocional e sucesso na vida


Por Yuri Machado


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"Qualquer um pode zangar-se - isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa - não é fácil."
(Aristóteles)

Os Testes Mentais

James Cattell (Universidade da Pensilvania) foi quem cunhou a expressão testes mentais quando trabalhava na Universidade da Pensilvânia, tendo administrado testes a vários de seus alunos. Entretanto, o primeiro teste psicológico que visava mensurar as habilidades mentais foi desenvolvido pelo médico francês Alfred Binet. A abordagem de Binet considerava mais adequado avaliar funções cognitivas (memória, atenção, etc.) ao invés de processos sensórios-motores propostos por Cattell.

No início do século XX, Binet recebeu um convite para integrar uma comissão que tinha por objetivo avaliar a capacidade de aprendizagem de crianças com dificuldades na escola. Binet trabalhou em parceria com o médico Théodore Simon, que foi seu colaborador durante muitos anos. A tradução do teste para o inglês foi realizada por Henry Goddard, que o denominou Escala de medida de inteligência Binet-Simom.

Coube a Lewis Terman (Universidade de Stanford) desenvolver a versão que que veio a se tornar padrão dos testes, agora com o nome de Stanford-Binet. Foi dele também o conceito de Quociente de Inteligência (número que representa a inteligência de uma pessoa, obtido com a multiplicação da idade mental por 100 e, em seguida, dividindo-se o resultado pela idade cronológica). O teste foi utilizado em larga escala ao longo da 1a Guerra Mundial para ajudar o exército a recrutar os indíviduos e ajudar a adequá-los às atividades necessárias.

Na década de 1920 os testes psicológicos já haviam caído nas graças do grande publico, tornando-se um sucesso retumbante de vendas com milhões de restes comercializados anualmente. Entretanto, com o passar do tempo, os testes perderam um pouco de força. A enorme demanda comercial e educacional acabou levando à uma série de problemas: inadequação, testes mal elaborados e até um teste elaborado por Thomas Edison levaram a uma queda no prestígio do modelo.

 

O Q.I. começa a perder força e surgem outras inteligências

Embora a influencia dos testes tenha sido reduzida, a predominância da inteligência racional permaneceu quase inabalável. A crença de que a inteligência (QI) era capaz de predizer o sucesso de uma pessoa na vida se manteve praticamente intocável até o final da década de 70.

Em 1983, Howard Gardner, da Universidade de Harvard, escreveu o livro Frames of Mind (Estruturas da Mente), revolucionando a idéia hegemônica de que a inteligência se restringia a conteúdos relacionados a lingüística e a matemática. O modelo proposto por Gardner contemplava inicialmente sete "tipos de inteligência": lógico-matemática, intrapessoal, corporal-cinestésico, espacial, interpessoal, lingüística e musical. Posteriormente ele fez algumas modificações.

Daniel Goleman — principal disseminador da inteligência emocional — a define como sendo "A capacidade de identificar nossos próprios sentimentos e os dos outros, de motivar a nós mesmos e de gerenciar bem as emoções dentro de nós e em nossos relacionamentos".


Goleman propõe cinco competências emocionais:

1- Autopercepção: Saber o que estamos sentindo em um determinado momento e utilizar as preferências que guiam nossa tomada de decisão; fazer uma avaliação realista de nossas próprias capacidades e possuir uma sensação bem fundamentada de autoconfiança.

2- Autorregulamentação: Lidar com as próprias emoções de forma que facilitem a tarefa que temos pela frente, em vez de interferir com ela; ser consciencioso e adiar a recompensa a fim de perseguir as metas; recuperarmo-nos bem de aflições emocionais.

3- Motivação: Utilizar nossas preferências mais profundas para impulsionarmos e guiar-nos na direção de nossas metas, a fim de nos ajudar a termos iniciativa e a sermos altamente eficazes, e a perseverarmos diante de reveses e frustrações.

4- Empatia: Pressentir o que as pessoas estão sentindo, ser capaz de assumir sua perspectiva e cultivar o rapport e a sintonia com uma ampla diversidade de pessoas.

5- Habilidades sociais: Lidar bem com as emoções nos relacionamentos e ler com precisão situações sociais e redes; interagir com facilidade; utilizar essas habilidades para liderar, negociar e solucionar divergências, bem como para a cooperação e o trabalho em equipe.

Peter Salovey e John D. Mayer — pioneiros no tema — definem a Inteligência Emocional em termos de capacidade de monitorar e regular os sentimentos próprios e os de outras pessoas, e de utilizar os sentimentos para guiar o pensamento e a ação.

Recentemente, o psicólogo Fred Luthans propôs o conceito de conceito de capital psicológico positivo, cujas quatro dimensões contempladas integram as denominadas competências emocionais:

  • Auto-Eficácia - Capacidade de alcançar os objetivos
  • Esperança - Capacidade de encontrar caminhos e motivação para utilizá-los
  • Otimismo - Capacidade de atribuir estilo atributivo otimista
  • Resiliência - Capacidade de suportar e vencer as adversidades.


Conclusão

Embora as pesquisas apontem para um aumento do QI médio das pessoas ao longo dos anos, isso não foi suficiente para nos tornar mais eficazes ao lidar com a complexidade do mundo em que vivemos. Pesquisas evidenciam que o Q.I. contribui com aproximadamente 20% do sucesso na vida. Também tem impacto pouco significativo em diversas áreas da vida, como relacionamentos e liderança e trabalho em equipe. Não se trata, portanto, de negar a importância do Q.I., mas reconhecer que outras competências — como capacidade de adiar gratificação — são imprescindíveis para o sucesso nas diversas áreas da vida.

 



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