É hora de se separar?
Como saber se é melhor insistir ou partir

Por Edwin Karrer


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Uma separação, seja um fim de namoro ou um divórcio, pode ser umas das experiências mais emocionalmente desgastantes. Em um momento como esse, emerge um turbilhão de emoções, dúvidas e conflitos. É uma transição da condição de "ter alguém" para a condição de viver a vida "sozinho". Diferente de outras habilidades que desenvolvemos com a experiência, parece que experiências de término de relacionamento não tornam as seguintes mais fáceis de lidar.

Mesmo nos casos em que se constata que o relacionamento se tornou muito ruim, virar a página não costuma ser algo tão simples quanto gostaríamos. Afinal de contas, há uma história que foi construída a dois e onde foi feito um grande investimento de afeto, energia e tempo. Nossa própria identidade se liga a uma identidade de casal, onde são compartilhados hábitos, familiares, amigos e muitas vezes também filhos e um patrimônio. A ideia de abrir mão desta ligação, com toda a incerteza do que vem pela frente, não é propriamente a sensação mais confortável do mundo. Nem para quem é deixado e nem para quem decide terminar.

Os questionamentos são inevitáveis: "Será que eu estou realmente fazendo a coisa certa? Será que ainda vale a pena tentar? Ainda temos juntos coisas boas o suficiente para fazer isso dar certo? Será que vou encontrar outra pessoa com quem eu possa ser feliz novamente? E se depois eu descobrir que foi um erro?" A dificuldade para se achar certas respostas vem da dualidade desta vivência. Pode haver um tipo de conflito em que o relacionamento parece ser, simultaneamente, bom demais para se desistir e ruim demais para se insistir. Por um lado, não queremos jogar fora uma relação que ainda tenha algum valor. Por outro lado, existe vida depois da separação e ela pode ser realmente melhor (para ambos).

Mesmo que não tenhamos respostas satisfatórias para os nossos questionamentos, muitas vezes chega a hora em que somos obrigados a colocar os elementos na balança e tomar uma decisão. Para grande parte das pessoas, tomar a iniciativa de terminar um relacionamento é uma das coisas mais difíceis que se pode pensar em fazer, pois é algo que pode afetar profundamente as vidas das pessoas envolvidas.

 

  "Descobrir a insuportável e delicada memória que teve um fim, não um final feliz. Ainda que a dor arrebente, ainda é melhor assim." (Fabrício Carpinejar)

 

Então, como tomar essa decisão com maior segurança, minimizando o impacto e o risco de arrependimento? Procurei agrupar algumas das questões mais relevantes sobre o assunto em 5 pontos para reflexão.

 

Parceria

Quando passa a fase inicial da paixão avassaladora, é fundamental para a relação que haja uma base de parceria, com diálogo aberto, compreensão, dedicação e compartilhamento de atividades e interesses.

Se vocês já não conseguem mais estar na mesma página, não sendo capazes de apreciar a companhia um do outro, nem de se divertirem juntos, então é difícil imaginar uma continuidade saudável para o relacionamento.

Afetivamente, não faz sentido manter um namoro ou casamento onde não se consegue ter uma boa amizade com o outro.

 

Intimidade

O ser humano, assim como muitos outros animais, possui uma extrema necessidade de contato físico. Tocar e ser tocado é uma demanda essencial em nossas vidas. A pele é não só o maior órgão do corpo humano, como também nosso meio físico de contato com o mundo. Assim sendo, fica fácil imaginar a importância da intimidade e vida sexual para um relacionamento.

Deve-se preservar as manifestações de intimidade na relação, como o toque, carinho, beijo e sexo (com penetração ou não). É absolutamente normal que haja altos e baixos ao longo do tempo e que em relacionamentos de longo prazo a frequência sexual não seja a mesma do início. No entanto, é importante prestar atenção aos níveis de satisfação de ambos os lados, reparando não apenas no sexo propriamente, mas no contato físico de modo abrangente.

Um relacionamento pode chegar a ter pouco ou nenhum sexo, variando o impacto disso para cada casal. O que está em jogo não é uma regra de frequência, mas sim avaliar se estabeleceu-se uma condição de insatisfação sexual, infelicidade e acomodação. É um quadro frequentemente reversível, mas somente se a busca por uma recuperação mobilizar ambas as partes do casal.

 

  "O casamento é como uma longa viagem em um pequeno barco a remo: se um passageiro começar a balançar o barco, o outro terá que estabilizá-lo; caso contrário, os dois afundarão juntos." (David Reuben)

 

Respeito

Conta-se a história de que se você jogar um sapo na água fervente ele pulará para fora imediatamente. Mas se você colocar este sapo na água fria e for esquentando-a gradualmente, até ferver, o sapo irá se acostumando e permanecerá na água até cozinhar e morrer.

Apesar de não sermos sapos, essa história guarda analogia com a nossa dificuldade maior para perceber mudanças graduais do que mudanças súbitas. Por conta disso, muitos casais acostumam-se gradualmente com uma rotina de desrespeito, com ridicularizações, constrangimentos públicos, agressões verbais e até mesmo agressões físicas.

Quando acaba o respeito entre um casal, não há mais espaço para uma relação saudável. Além disso, em casos extremos, pode estar ameaçada a integridade física ou até mesmo a vida de algum dos envolvidos, como nos mostram os tantos casos de crimes passionais.

 

Expectativas

Outro aspecto importante diz respeito ao alinhamento das expectativas do casal. Há diálogo e feedback? As expectativas de um em relação ao outro são manifestadas e atendidas na medida do possível? Há predisposição das partes para mudar pontos que deixam a desejar?

Ninguém deve chegar ao extremo de se anular e viver em função de outra pessoa. Mas quando deixa-se de se importar com o outro, em relação às suas expectativas e sua satisfação, talvez já não haja mais um casal, mas apenas duas pessoas mantendo um convívio.

 

Planos

Um relacionamento é, em certa medida, uma jornada conjunta. Por isso, é importante que haja alguma afinidade de destinos a se alcançar. Há planos em comum? Você se imagina com esta pessoa daqui a 1, 5 ou 10 anos? Como se sente ao imaginar isto?

 

Conclusão

Todos os relacionamentos passam por oscilações e fases onde alguns desses pontos podem estar apenas provisoriamente abalados. Qualquer avaliação destes aspectos deve buscar sua validade ao longo de certo tempo, não subitamente em um momento de crise pontual.

Espero que a reflexão sobre os pontos acima aumente a visibilidade do contexto, dando mais segurança para uma avaliação acertada.

Cabe também lembrar que um casal em situações de conflito pode se beneficiar bastante de um suporte psicoterapêutico, seja através de uma terapia de casal ou individual.

 



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