É possível viver sem mentir?
O papel social da mentira


Por Edwin Karrer


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Uma das nossas necessidades mais básicas é a necessidade de segurança. Isso se manifesta não apenas em relação à integridade física, mas também em outros níveis, como a segurança de ter uma renda, um plano de saúde, seguro automotivo, seguro residencial, seguro de vida... há uma verdadeira industria dedicada a atender nossas necessidades de segurança. Nas relações interpessoais, a necessidade de segurança manifesta-se sobretudo na atitude de confiar. E por ser tão importante poder confiar no outro, a mentira torna-se algo socialmente inaceitável.

O repúdio à mentira não é peculiaridade do nosso tempo, mas algo que sempre permeou as relações humanas, sendo até mesmo tema mitológico. A serpente da Árvore da Vida (Gênese 3) é autora de uma das primeiras mentiras famosas, ao induzir Eva a comer o fruto proibido. Ainda na Bíblia (Êxodo 20), temos entre os Dez Mandamentos: "Não levantarás falso testemunho contra o próximo". Independente do valor que cada um atribua a essas passagens — religioso, histórico ou meramente simbólico — vemos que a preocupação com a mentira remonta aos primórdios da humanidade.

 

 

"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer."

(Mario Quintana)

 

No nosso cotidiano, em todo tipo de interação, nós tanto produzimos como somos expostos a um considerável volume de mentiras. Interessante que assim ocorra em uma sociedade que tanto preza a verdade... dos outros. A maioria das pessoas diz considerar a mentira como algo abominável, inaceitável. Há quem diga que é preferível receber a pior verdade do que a melhor mentira. Outros afirmam ser aceitável mentir, desde que seja por uma boa causa. Seja como for, o fato é que todos nós mentimos. Sim, inclusive você.

Antes que essa afirmação provoque qualquer mal-estar, vamos pensar no que significa a mentira. Mentir é uma ação onde um sujeito tenta deliberadamente induzir outro a acreditar em algo que sabe ser falso. Isto amplia o conceito de mentira como não apenas a ocultação de algo grave ou egoisticamente visando obter alguma vantagem sobre os outros. Então, encaremos a realidade de que, em maior ou menor grau, somos todos mentirosos em parte das nossas interações.

Quem nunca disse que estava bonito aquele cabelo que implorava pela intervenção de um bom cabeleireiro ou elogiou aquela roupa esquisita que a pessoa exibia tão empolgada e satisfeita por ter comprado? Quem nunca inventou um engarrafamento, um problema no carro, ou qualquer outro imprevisto para justificar um atraso? Ou ainda, quem nunca respondeu ao anfitrião que estava ótima aquela festa absolutamente chata, onde se esperava ansiosamente a oportunidade de ir embora? Parece haver uma categoria de mentira que conta com certo aval social, a chamada "mentira branca", que seria aquela (supostamente) incapaz de causar dano, ou que poderia até mesmo trazer algum benefício a terceiros.

Não se trata necessariamente de uma dicotomia entre ser falso ou ser sincero. Muitas pessoas usam o argumento da verdade-acima-de-tudo para justificar seu próprio jeito grosseiro, sem levar em consideração o bem-estar alheio. Para que causar um sofrimento a outra pessoa, quando uma pequena mentira sem nenhum efeito colateral poderia evitar um constrangimento desnecessário? Será que não há um toque de sadismo em quem procede dessa maneira?

 

 

"Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal."

(Oscar Wilde)

 

Por outro lado, há a mentira como instrumento de obtenção de vantagens pessoais em detrimento de outros e explorando uma confiança estabelecida. Diferente da chamada "mentira branca", motivada pelo interesse no benefício alheio, esta mentira com base no egoísmo carece de defesa socialmente e é sempre classificada como deplorável.

Segundo pesquisa realizada pelo psicólogo Robert Feldman, da universidade de Massachussetts, há uma diferença de gênero na proporção entre estes dois tipos de mentiras. As mulheres teriam uma tendência a mentir mais visando proporcionar algo positivo a seus interlocutores, enquanto nos homens haveria uma maior tendência a mentir em benefício próprio. Mas devemos considerar que tanto homens como mulheres podem mentir com qualquer uma destas motivações e não há como fazer generalizações neste aspecto.

Na natureza também podemos observar o uso da mentira como instrumento de manutenção social. Os primatas, por exemplo, utilizam amplamente fingimentos para obter vantagens sociais, alimento e até para acasalar. E ao serem desmascarados, sofrem como consequência uma desvalorização social, exatamente como ocorre na nossa sociedade.

A verdade é que a mentira (sem intenção de trocadilho aqui), em situações específicas e doses moderadas, não só facilita a vida como é fundamental para viabilizar o convívio social. Todos sabemos que todos mentimos em alguns momentos, mas pela manutenção de uma certa ordem, nós abominamos a mentira, especialmente para que não seja dirigida a nós mesmos. Assim, em certa medida, a mentira não seria um traço de maldade, mas sim uma habilidade social fundamental.

Há dois filmes que são bem interessantes para visualizarmos (dando o devido desconto à ficção) como seria a vida em sociedade sem a mentira.

O primeiro, que acho ótimo filme e recomendo fortemente, é A invenção da mentira (também encontrado como O primeiro mentiroso), de 2009.

 

 

O segundo, bem mais conhecido, é O mentiroso, de 1997, com Jim Carrey no papel principal (não encontrei nenhum trailer online com legenda para esse filme).

 

 

E você, o que acha? É possível a vida em sociedade sem que haja absolutamente nenhuma mentira?

 



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