Felicidade duradoura
Adaptação hedonista e outras considerações


Por Yuri Machado


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Todas as pessoas querem ser felizes! De uma maneira ou de outra, seja admitindo abertamente ou por intermédio de alguma outra ação ou comportamento, a felicidade é o "pano de fundo" de nossos objetivos e de nossa realização pessoal.

A felicidade tem sido objeto de reflexão ao longo de milhares de anos. Diversos filósofos se dedicaram ao tema. Aristóteles defendeu a idéia de que a felicidade estava relacionada à ação virtuosa. Para ele a felicidade é a meta da vida humana, tudo o que fazemos tem como motivo principal a busca da felicidade.  Epicteto escreveu "A arte de viver", manual clássico da virtude, felicidade e sabedoria. Para esse importante filósofo, uma vida feliz era sinônimo de uma vida virtuosa.

A distinção entre a vida prazerosa (hedonismo) e vida significativa (eudemonismo), corroborada pela psicologia positiva, é fundamental para o bem-estar e para adoção de estratégias (cognitivas e comportamentais) visando a construção da felicidade duradoura.

Atualmente, para muitas pessoas prevalece a idéia de felicidade associada ao hedonismo, mas essa visão é insuficiente para promover uma sensação de que a vida realmente vale à pena. Nesse modelo, a felicidade fica muito dependente das circunstâncias (mito de que a felicidade consistiria em mudar as circunstâncias) e ingredientes fundamentais como significado, engajamento e propósito acabam ficando de fora.

Dois outros mitos também merecem destaque. Um deles diz respeito a uma idéia (que me parece bastante equivocada) de que a felicidade seria como um destino final, quando sabemos que a sensação de bem estar deve ser aproveitado ao longo de toda a jornada. A felicidade é o próprio caminho.

O outro mito se refere à genética, isto é, a idéia de que algumas pessoas foram contempladas com o bilhete premiado da loteria genética e outras não. Embora as pesquisas com gêmeos de Minnesota (EUA) realizadas pelo Dr. David Likken ressaltem a influência dos genes, eles são apenas uma parte dessa complexa equação.

Com freqüência as pessoas atribuem grande importância à aspectos monetários, ou seja,  a felicidade estaria sujeita ao dinheiro. Entretanto, diversas pesquisas realizadas por Ed Diener da Universidade de Illinois, com destaque para uma com ganhadores de loteria, mostrou um cenário diferente, em que a partir de uma determinada faixa de renda, o dinheiro tem pouca influência na felicidade.

O Fenômeno da Adaptação hedonista, descrito em 1971 por Philip Brickman, ajuda a compreender o motivo pelo qual as circunstâncias não possibilitam a felicidade duradoura. De acordo com Brickman e colaboradores, existe um patamar base para a felicidade e embora os eventos positivos (como realizar uma viagem dos sonhos) ou negativos (ser submetido a uma cirurgia) possam produzir variações, eles têm um efeito pouco duradouro, o que nos leva de volta para o patamar habitual de felicidade.

À essa altura, o leitor já deve ter percebido que a felicidade entendida como hedonismo, como mera busca de prazer e dependente das circunstâncias da vida, é bastante efêmera. Assim, parece evidente a necessidade de repensar alguns conceitos sobre a felicidade.

Nesse sentido, a Psicologia Positiva investe em um novo enfoque. Considerando que a predisposição genética está fora de nosso controle e que as circunstâncias sofrem o impacto do fenômeno da adaptação hedonista, a proposta consiste justamente em mudar o foco atencional, direcionado-o para as atividades intencionais, pensamentos e comportamentos sobre os quais podemos exercer influência.

A pesquisadora Sonja Lyubomirski, da Universidade da Califórnia — vencedora do prêmio Templeton para jovens cientistas — propõe a realização de 12 atividades intencionais para a felicidade, conforme abaixo. As atividades são escolhidas de acordo com o perfil de cada pessoa.

 

  1. Expressar gratidão;
  2. Cultivar o otimismo;
  3. Evitar ruminar e fazer comparações sociais;
  4. Praticar a cortesia;
  5. Cultivar relacionamentos;
  6. Estratégias de superação de dificuldades;
  7. Perdoar;
  8. Experimentar estados de fluxo e mini fluxo;
  9. Desfrutar as alegrias da vida;
  10. Estabelecer e alcançar metas;
  11. Práticas espirituais;
  12. Cuidar do corpo (meditação, esporte, etc).

 

A felicidade, ou bem-estar subjetivo, como preferem alguns pesquisadores, é um fenômeno extremamente complexo. Para você ter uma idéia, no livro "A essência da felicidade" Desmomd Morris menciona 17 tipos de felicidade. Ainda assim, é possível e desejável que você assuma a responsabilidade pelo seu bem-estar.

Acima de tudo, a sua  felicidade vai depender de uma atitude positiva necessária para a felicidade, que envolve os processos de atenção, interpretação, e memória. Em um ambiente abundante de eventos, a capacidade de direcionar a atenção para o que a vida tem de bom proporciona, sem sombra de dúvida, uma visão de mundo mais agradável.

A felicidade também depende da maneira como interpretamos os eventos cotidianos e determina nossos sentimentos de bem-estar, e aprender a interpretar a maioria dos eventos a partir de uma perspectiva positiva é uma habilidade valiosa.

Também importante é o viés de memória, que  pode realmente trabalhar em nosso favor em termos de felicidade. Com um pouco de esforço mental, é possível lembrar de acontecimentos bons do passado e assim aumentar significativamente o bem-estar.

Em outras palavras, a felicidade é o rótulo que colocamos no pensar e sentir de maneira positiva sobre a própria vida. Parafraseando Viktor Frankl — psiquiatra austríaco que foi prisioneiro de guerra e posteriormente fundou a logoterapia — a felicidade não pode ser buscada, mas acontecer como efeito da sua dedicação a uma causa maior a que você possa se engajar.

 



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