Intimidade no relacionamento
Como não confundir com desleixo

Por Edwin Karrer


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Muitas pessoas falam sobre os supostos males que a intimidade causa no relacionamento. Fala-se do quanto ela pode esfriar a paixão e até mesmo causar separações. Ora, isto me parece um tanto contraditório, pois não há relacionamento afetivo sem intimidade. Seria um dos requisitos fundamentais da relação, ao mesmo tempo, a sua sentença de morte?

Na verdade, o que ocorre é uma grande confusão entre intimidade e desleixo. Ser íntimo de alguém com quem você se relaciona é questão de sintonia que se conquista ao longo do tempo, até o ponto de ser capaz de conversar com os olhos e antecipar as reações da pessoa. Esta capacidade de conversar sem falar (que não exclui a necessidade de diálogo verbal) está fortemente ligada à cumplicidade entre um casal, onde sabe-se que pode contar com a outra parte em qualquer situação. Ironicamente, esta sensação de aceitação incondicional acaba levando ao desleixo com o outro. Ocorre uma certa ilusão onde se crê que "posso fazer (ou deixar de fazer) qualquer coisa, pois quem me ama sempre aceitará tudo que venha de mim". Acredite, não é bem assim que a banda toca.

 

 

"Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor."

(Vladimir Maiakóvski)

 

Com o aprofundamento da relação e o aumento da sensação de cumplicidade, ganhamos em segurança, mas perdemos em sedução. Seduzir, em uma pura definição de dicionário, significa atrair. Neste ponto do texto, estou certo de que passará pela cabeça de muitos leitores: "mas pra que atrair alguém que eu já atraí?". Este é um dos principais caminhos pelos quais a vaca vai pro brejo.

A sedução entre um casal precisa ser um processo contínuo, pois um rótulo de namoro ou casamento não é suficiente para manter o encanto, se não houver investimento mútuo permanente. Todos precisam se sentir desejados e a atitude de conquista é a mensagem realmente eficiente para proporcionar isto. Não, não basta dizer "eu te amo" de vez em quando. As atitudes falam muito mais alto do que as palavras.

É claro que um casal não vai ficar em uma permanente postura de caça um ao outro, mas é muito importante demonstrar que você se importa com a forma como a pessoa amada tem os sentidos impressionados por você. Isto inclui o que a pessoa vê em você, o que ela ouve de você e os odores que ela sente por sua conta. A fórmula é simples: se no início, para conquistar a pessoa, você se arrumava, se perfumava, se cuidava vaidosamente e tomava cuidado com o que dizia e fazia, por que motivo agora você conseguiria aquele mesmo efeito apresentando-se como uma pessoa relaxada e sem vaidade?

Já ouvi gente dizendo que isto constitui uma prova de amor: "quem ama de verdade tem que amar até o bafo, chulé, cecê, arroto e peido da pessoa". Sinceramente, eu não estou convencido disso. Prefiro afirmar, de outro lado, que quem ama de verdade não submete voluntariamente a pessoa a estes estímulos sensoriais. Quem realmente se importa com quem está ao seu lado deve se empenhar em se cuidar, incluindo manter uma boa forma física (dentro das reais possibilidades), fazer uma boa higiene pessoal, vestir-se bem e evitar expor a pessoa a manifestações corporais que possam ser repulsivas. Há certas situações que podem ser inevitáveis em algum momento e devem ser encaradas com naturalidade, mas torná-las um hábito é bem diferente de ocorrências ocasionais.

Um casal costuma passar bastante tempo junto e divide boa parte dos seus momentos íntimos individuais. Isto não significa que alguns destes momentos não devam ser preservados. Sim, isto inclui não usar o vaso sanitário na presença da outra pessoa.

 

 

"Todas as coisas têm o seu mistério e a poesia é o mistério de todas as coisas."

(Federico Lorca)

 

O peso que se dá para cada comportamento varia muito de uma pessoa para outra. Há casais que combinam em certas atitudes e podem até mesmo se divertir juntos fazendo um campeonato de arroto, enquanto para outras pessoas uma manifestação desse tipo pode ser considerada grosseira, desagradável e mesmo desrespeitosa. Então é importante alinhar expectativas em relação a esses pontos, lembrando que fingir aceitar certas coisas no início para agradar, depois de algum tempo torna-se insustentável e acaba minando o relacionamento.

Não se trata de ter uma vaidade neurótica, nem de ser formal com quem você namora ou casou, o que não seria nem um pouco saudável. Mas se você prefere ter do seu lado uma pessoa bem cuidada (e cuidadosa), por que a recíproca não seria verdadeira? Enfim, trata-se de fazer, na medida do possível, com que a sua presença seja uma experiência agradável para quem está com você. Se vale a pena estar junto, vale a pena investir em agradar.

A intimidade não significa aceitação incondicional, mas sim cumplicidade e respeito pelo outro e por seu bem estar. Neste sentido, evite o descuido, o desleixo, mas não se esqueça de que um relacionamento afetivo sem intimidade não é relacionamento, é apenas mera convivência.

 



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