O fenômeno Big Brother
Quando os cegos dão uma espiadinha

Por Edwin Karrer


Leia também


Muita coisa tem sido dita sobre reality shows nos últimos anos, especialmente sobre o mais popular deles: o Big Brother. Este não é apenas mais um dos tantos textos de ataque ao programa, mas um convite à uma reflexão crítica sobre nosso momento sociocultural.

Cada temporada de exibição da tal "casa mais vigiada do Brasil" parece vir com disputas mais acirradas nas redes sociais, onde o pessoal anti-BBB e os pró-BBB se enfrentam. O "lado A" afirma que os espectadores do programa são desprovidos de inteligência e cultura. O "lado B" tacha os outros de pedantes, de chatos metidos a intelectuais. Dependendo do caso, ambos podem estar certos.

De fato, boa parte do público do BBB é de pessoas com interesses tão rasos que programas de barraco familiar diante de auditórios histéricos são considerados uma grande atração e revistas de fofocas sobre celebridades são sua definição de literatura. Mas há também pessoas instruídas e inteligentes que assistem BBB.

Por outro lado, há pessoas que apenas consomem outras opções de entretenimento igualmente medíocres, mas que elegem o BBB para atacar, tentando criar uma pose de erudito. Afinal, é mais fácil tentar diminuir os outros do que esforçar-se para crescer. No entanto, muitos dos que criticam o programa não o fazem de forma vazia, mas com embasamento e com uma consciente argumentação sobre espetáculo e alienação.

Seja como for, quem escolhe qualquer opção de entretenimento está exercendo sua liberdade individual, não sendo isso da conta de mais ninguém. Não vejo alguém ser hostilizado por resolver se encher de fast food; então o que justifica desrespeitar quem escolhe alimentar a própria mente com conteúdos de baixa qualidade? O respeito é requisito fundamental para um bom convívio social, não devendo a expressão de uma opinião pessoal ser confundida com agressão aos que dela discordam.

 

 

"Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo." (Voltaire)

 

Dito isso, vejamos a origem da expressão Big Brother. Em 1948, o escritor George Orwell escreveu um livro intitulado 1984. Na obra, o "irmão mais velho" (ou "grande irmão", como ficou conhecido nas traduções em português) é um ditador que tudo vê, mantendo as pessoas sob permanente condição de vigilância e manipulando sua forma de pensar.

O programa Big Brother surgiu em 1999 na Holanda, de onde foi licenciado para diversos países do mundo. Por aqui, teve sua estreia como Big Brother Brasil em 2002. Muitos outros reality shows surgiram em formatos diversos, mas o Big Brother se estabeleceu como o mais popular do gênero.

Seriam os reality shows uma criação desta sociedade atual, onde tanta gente busca avidamente ver e ser vista? Com uma breve revisão histórica, podemos constatar que essas produções não são propriamente uma novidade.

Na Antiguidade, no período do Império Romano, Roma tornou-se uma rica capital que centralizava os principais acontecimentos políticos, sociais e culturais da época. Muita gente migrava das mais diversas regiões para tentar uma vida melhor na próspera capital, exatamente como acontece até hoje pelo mundo. O acúmulo de pessoas pobres na periferia romana, vivendo sem infraestrutura e sendo exploradas em subempregos, começou a representar um sério risco de revoltas sociais.

Para manter a massa sob controle, foi instituída uma política de contenção social e despolitização do povo. Alimentos simples — basicamente cereais — eram distribuídos à população para que não morresse de fome. Em grandes arenas, espetáculos eram regularmente oferecidos ao povo, incluindo aqueles onde gladiadores enfrentavam-se até a morte. Quando um deles perdia a arma ou ficava encurralado, o imperador consultava os apelos do público para saber se a vida do perdedor deveria ser poupada e confirmava a decisão exibindo o polegar para cima (vida) ou para baixo (morte). Esse simples artifício dava àquelas pessoas com vidas miseráveis a ilusão de terem poder sobre a vida alheia, poder que não tinham realmente nem sobre suas próprias vidas. Sim, nesse precursor dos reality shows modernos também havia um "paredão"! Essa mesma ilusão de empoderamento é replicada hoje em quem paga para participar da votação de eliminação do BBB — o que no espetáculo midiático significa uma espécie de morte para quem está no programa em busca de fama a qualquer preço.

Essa estratégia alienante, dando um mínimo de subsistência alimentar e bastante distração, ficou conhecida como "política do pão e circo". Qualquer semelhança com a história atual, especialmente no Brasil, não é mera coincidência. A estratégia permanece absolutamente eficiente até os dias atuais: enquanto houver o pão (políticas assistencialistas) e circo (futebol, novelas, carnaval, BBB e similares) o povão estará sob controle, totalmente alheio às aberrações que ocorrem na administração pública e ainda elegendo, ano após ano, a escória moral da sociedade para governá-la.

 

 

"Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão." (Lao-Tsé)

 

Li recentemente um texto onde a autora cobrava o direito de o cidadão chegar em casa depois de um dia duro de trabalho e poder simplesmente ter uma distração no BBB, sem preocupar-se com "esse papo de cultura". Sim, ele tem o direito de distrair-se... de distrair-se de si mesmo e da sua realidade, passando pela vida sem que sua existência faça sentido. Mas daí a dizer que fazer uso desse direito é a melhor opção, há divergências.

Eu não assisto BBB ou similares, mas não por achar que se fizer isso minha inteligência e cultura serão sugadas pela televisão. Acima de tudo, não quero me submeter ao deboche de quem manipula o sistema pra manter esse estado de coisas atual na sociedade. Se você é fã de Big Brother, não sou eu que vou questionar sua inteligência. Mas posso afirmar que você ainda está muito vulnerável ao espetáculo midiático alienante.

Na cultura do imediatismo e das celebridades instantâneas, a busca de um gozo fácil e instantâneo torna convidativo se anestesiar na própria vidinha sem sal e viver através do outro, seja através do personagem da novela, do time de futebol vencedor ou dos "heróis" do BBB. Espere um instante... "heróis"? Sim, é dessa forma patética que o apresentador, um (antes) respeitado jornalista, se refere às pessoas desesperadas que se enfiam nesse circo em busca da fama. Fama por algum talento ou realização? Não, fama por meramente ter aparecido na televisão, mesmo que expondo o ridículo de ser como é.

O Big Brother é reflexo da adoecida sociedade de consumo que constituímos hoje. Seu enorme sucesso se deve ao fato de muitos preferirem a vitrine ao invés do espelho, onde teriam que dar conta de sua própria realidade. Ironicamente, a última coisa que você terá acesso acompanhando um reality show é a realidade; especialmente a sua.

Os reality shows são um mal? Creio que não sejam mais do que desdobramentos da nossa própria incapacidade de olharmos para nós mesmos com a devida profundidade. O mal, nesse caso, surge quando o sistema utiliza essa incapacidade como artifício de controle da massa. Quanto mais alienação, menos resistência à opressão e às desigualdades sociais.

Sabemos que na nossa sociedade "democrática" a liberdade não é ilimitada: a minha termina onde começa a do outro. Há uma dinâmica injusta no mau uso da liberdade individual, pois uma parte esclarecida da população sofre péssimas consequências políticas por conta da grande massa alienada. O direito de tantos outros cidadãos manterem-se em estado de alienação fere o meu direito de ter uma boa administração pública. Mas quem disse que o mundo é justo?

E assim vamos vivendo de pão e circo...

 



Este texto pode ser reproduzido sem finalidade comercial, sob as seguintes condições:
- Identificar claramente o nome do autor.
- Criar link para a url desta página ou informar a url por extenso.
- Comunicar o uso enviando e-mail para edwin.karrer@sobrepsicologia.com.br com informações de data e endereço (ou outra especificação) da publicação.


Gostou desta página?

Então acesse abaixo e
compatilhe com seus amigos
onde você desejar
 

Os comentários aqui no site são feitos via Facebook, por isso você precisa estar logado lá se quiser participar. Certifique-se de que seus comentários não desrespeitem as regras de conduta e postagem contidas em nossos Termos e condições de serviço. Os comentários são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
 

Artigos Vídeos Psicoterapia Orientação Profissional Workshops Contatos