O veneno do ciúme
Conheça 10 estratégias para superar o problema

Por Edwin Karrer


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Muitas vezes ouvimos dizer que o ciúme é o tempero do relacionamento. Minha escolha de título para este texto já sugere o quanto essa ideia do senso comum me desagrada. Se considerarmos que o ciúme leva a um estado de mal-estar subjetivo caracterizado por emoções como medo, tristeza, raiva e outras, podemos facilmente concluir que o ciúme é uma indesejável fonte de adoecimento individual e das relações.

O ciúme é um estado emocional desagradável, normalmente relacionado a alguma ameaça de perda de vínculo com alguém que valorizamos. Embora haja múltiplas definições de ciúme, há três elementos comumente levados em consideração:

1- É uma reação a uma ameaça (percebida ou imaginada) de perda;
2- É identificado um rival (real ou imaginário) que pode causar a temida perda;
3- Há uma reação que visa eliminar o risco de perda do objeto amado.

Embora o ciúme possa ter diferentes manifestações, vamos focar aqui no ciúme romântico (aquele que se dá entre pessoas com vínculo afetivo-sexual).

Na psicopatologia são conhecidos transtornos psíquicos onde o ciúme pode estar presente, manifestando-se o ciúme patológico como um desejo extremo de controlar totalmente os sentimentos e comportamentos do parceiro. São quadros de grande sofrimento, onde fantasias e até mesmo ideias delirantes podem ocupar de forma constante a pessoa e levarem-na a uma busca compulsiva de evidências que comprovem suas crenças e temores, podendo "encontrar provas" mesmo onde não existem. Bisbilhotar o celular, e-mail e Facebook de sua vítima, além de verificar recibos, faturas de cartão, contas telefônicas e contratar detetives particulares são algumas das violências cometidas pelo ciumento patológico. Há na literatura sobre o assunto casos absurdos, como por exemplo o de uma mulher que assinava com uma caneta sobre o pênis do marido no início do dia e verificava como estava a marca quando ele voltava para casa. Todas essas ações, frequentemente reconhecidas como ridículas pelo próprio doente, tem a finalidade de tentar aliviar as fortes e persistentes emoções negativas, mas não são capazes de parar o mal-estar. Casos extremos podem resultar nos crimes passionais, como agressões e até mesmo homicídios.

Tratando à parte o ciúme patológico, muitos defendem que o chamado "ciúme normal" é algo inerente ao ser humano e que temos que simplesmente conviver com isso, havendo inclusive teorias fatalistas de bases biológicas. Desconsiderando tais ideias, eu acredito que o ciúme, embora seja um fenômeno complexo, é uma construção psicocultural de aspectos predominantemente nocivos. Defendo que além de não estarmos condenados a viver com ciúme, podemos exercitar atitudes libertadoras e alcançar uma maior qualidade nas relações e na vida, ao contestarmos certas crenças às quais somos condicionados desde o início do nosso desenvolvimento.

 

 

"Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum".

(Roland Barthes)

 

Indico 10 estratégias que podem ajudar a compreender e superar o problema do ciúme.

 

1- Cuide da sua autoestima

O ciúme não é exclusividade de pessoas inseguras e com baixa autoestima, mas pode ser fortemente acentuado nesses casos. Uma pessoa que está insatisfeita consigo mesma e faz comparações o tempo todo com outras pessoas a quem julga serem superiores, mais facilmente cultivará o medo de ser trocada.

Conscientize-se de que seu valor pessoal é um atributo interno, dependendo muito mais de quanto você é capaz de identificar e utilizar suas forças pessoais do que da adoção de referenciais externos de comparação.

 

2- Cuidado com o impulso de dominação

Alfred Adler, criador do conceito do "Complexo de Inferioridade", aponta que há dois caminhos para a resolução do sentimento natural de inferioridade que a criança tem por conta de sua inferioridade física e falta de poder, comparada aos adultos. No caminho construtivo e saudável, a busca por uma real superioridade leva o sujeito a desenvolver-se e ampliar suas capacidades. Entretanto, há pessoas que ao invés de desenvolverem seu potencial, buscam diminuir e dominar outras pessoas, como tentativa de compensação.

Cuidado com a tentação de exercer domínio sobre quem esteja com você, que independente de qualquer rótulo ou convenção (como chamar de seu/sua), é uma pessoa livre.

 

3- Administre a necessidade de segurança

Abraham Maslow, em sua famosa Hierarquia das necessidades (Pirâmide de Maslow), situa a necessidade de segurança como uma das mais básicas do ser humano, vindo imediatamente após as necessidades fisiológicas. A necessidade de sentir-se seguro se dá em diversos níveis, incluindo a segurança física e ter um trabalho remunerado, por exemplo.

Essa mesma necessidade de segurança que nos faz buscar vínculos estáveis e definitivos nos faz sofrer, pois sabemos que os vínculos humanos não são necessariamente permanentes. Alguém que faz parte de nossa vida em um dado momento não necessariamente estará presente para sempre. Pessoas podem ir embora pelos mais diferentes motivos. A melhor atitude mental quanto a isso é exercitar a aceitação da impermanência e imprevisibilidade da vida. Não faz sentido sofrer antecipadamente por algo que não se sabe se ou quando acontecerá.

 

4- Identifique e conteste fantasias e projeções

Muitas vezes o ciumento cria fantasias e projeta na pessoa parceira aquilo que ele mesmo tem vontade ou imagina que faria. Vale analisar possíveis ideias autorreferentes e pensar que não necessariamente alguém fará algo só por que você faria aquilo em determinada situação.

 

5- Desenvolva sua inteligência emocional

Muitos ciumentos costumam explodir e brigar primeiro e somente depois pensar. Prova disso é que quem convive com uma pessoa muito ciumenta acostuma-se a presenciar de forma recorrente brigas e barracos seguidos de pedidos de desculpas e declarações de arrependimento. Daniel Goleman — grande estudioso da inteligência emocional — define esse tipo de processo como Sequestro Emocional (ou Sequestro Neural), onde o sistema límbico assume o controle e nos coloca em um modo primitivo de funcionamento conhecido como "modo de luta ou fuga", tirando o cérebro pensante (neocórtex) temporariamente da jogada. Em certa medida, creio que nos entregamos mais ainda a isso quando aceitamos a dicotomia emoção X razão.

Com o desenvolvimento de competências de inteligência emocional, podemos harmonizar melhor nosso funcionamento psíquico, aprendendo a identificar com mais eficiência nossas emoções e a ponderar sobre as melhores ações a tomar a cada momento. Esqueça aquele papo de "isso é mais forte do que eu", pois o tal "isso" não é uma força externa, é você. Então aprenda a controlar-se.

 

6- Promova comunicação e transparência

Procure manter um bom e permanente canal de comunicação com a pessoa parceira. Isso não significa transformar todas as interações em acusações e demonstrações de desconfiança, mas sim jogar juntos e apelar para a cumplicidade entre vocês, conversando harmoniosamente sobre caminhos para que sua insegurança e desconforto possam ser minimizados sem sufocar ou pressionar a outra pessoa.

 

7- Cultive e respeite um espaço de individualidade

Um dos maiores complicadores para a relação onde há um ciumento pode ser a marcação cerrada. A necessidade de controle pode levar a pessoa a criar uma rotina de grude onde a outra pessoa praticamente não tenha mais espaço individual. Além de isso ter potencial destruidor para qualquer relação, ainda pode piorar a situação do ciumento, que se acostuma cada vez mais ao controle presencial sobre o outro e fica cada vez mais sensível e desconfiado em situações de afastamento físico.

É necessário que cada um tenha seu espaço individual preservado, não só para manter a saúde da relação, mas também para ir enfraquecendo no ciumento a crença de que "algo vai acontecer" quando não estiverem juntos.

 

8- Desenvolva atividades intencionais para a felicidade

Sonja Lyubomirski propõe a realização de 12 atividades intencionais para a felicidade. Essas atividades são escolhidas conforme o perfil de cada pessoa. São elas: Expressar gratidão; cultivar o otimismo; evitar ruminar e fazer comparações sociais; praticar a cortesia; cultivar relacionamentos; desenvolver estratégias de superação de dificuldades; perdoar; experimentar estados de fluxo; desfrutar as alegrias da vida; estabelecer e alcançar metas; adotar práticas espirituais e cuidar do corpo (meditação, esportes, etc).

A realização desses tipos de atividades eleva o nível base de felicidade e ajuda a esvaziar conteúdos mentais nocivos, como por exemplo o ciúme.

 

9- Refletir sobre compersão

Há uma boa chance de que até hoje você nunca tenha tomado conhecimento da palavra "compersão". A compersão (do inglês compersion) é um conceito que surgiu na comunidade poliamorista. De certa forma, pode ser considerado o oposto do ciúme. Enquanto no ciúme há apenas emoções negativas associadas à possibilidade de a pessoa amada envolver-se com outro alguém, na compersão há uma felicidade incondicional pela felicidade de quem você ama, independente de com quem a pessoa esteja ligada em um dado momento.

É compreensível que essa ideia cause estranhamento para qualquer pessoa que tenha como referencial apenas relacionamentos monogâmicos, mas a ideia aqui neste ponto não é discutir monogamia X poliamor, mas sim propor algumas reflexões específicas: 1) Não faz sentido alimentar a fantasia de posse do outro, por que um relacionamento amoroso não se trata de possuir alguém, mas de renovar (ou não) a cada instante, por um tempo indeterminado, a intenção de compartilhar momentos com quem se gosta. 2) Pense por um instante na natureza do seu sentimento por quem está com você. É um amor incondicional ou depende do cumprimento de "clausulas contratuais"?

Essas reflexões são profundas e muito importantes, independente do formato de relacionamento que você tenha.

 

10- Busque ajuda

É importante deixar claro que o ciúme não é uma condenação para toda a vida. É uma condição que pode e deve ser tratada. Se você sofre (e faz sofrer) por causa do ciúme, mas deseja viver com mais harmonia e ter relacionamentos mais saudáveis, procure um suporte psicológico.

 



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