Os "heróis" do Facebook
Dá pra mudar o mundo compartilhando postagens?

Por Edwin Karrer


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As mídias sociais estabelecidas pela Internet dão voz a praticamente qualquer indivíduo, permitindo a propagação de ideias de forma revolucionária. Estamos nos adaptando às intensas mudanças provocadas por estas mídias democráticas, ainda havendo neste cenário muitos fenômenos psicossociais a serem estudados.

Depois das publicações de imagens multicoloridas de gosto duvidoso e sem conteúdo relevante que tornaram-se frequentes no Orkut (e depois também no Facebook), observamos atualmente uma onda de publicações na linha da responsabilidade social.

É muita gente bondosa, politicamente correta, amante dos animais, "ativista" por causas diversas... especialmente na frente do computador. As atualizações são infestadas por imagens de animais mortos ou em sofrimento, crianças com deformidades físicas, fetos abortados, protestos contra políticos ou contra a corrupção, etc. Os comentários são enérgicos e as discussões acaloradas. Mas e aí, o que realmente mudou após aquela postagem?

Não estou aqui criticando o uso de mídias sociais para defender ideias ou criar movimentos sociais. Isto é uma possibilidade maravilhosa e muita gente boa tem efetivamente se mobilizado com o suporte da Internet para fazer acontecer. A questão é: até que ponto boa parte destes "salvadores virtuais" não estão usando a mera propagação destas publicações online em substituição a uma ação efetiva? Afinal, parece mais confortável clicar em compartilhar do que levantar da cadeira e disponibilizar seu tempo e energia em benefício de uma causa. Não é difícil convencer a si mesmo de que algo foi feito, com um discurso interno do tipo "dever cumprido".

Talvez o Facebook tenha criado sem querer (ou não), como um de seus recursos mais utilizados, uma forma de aliviar no usuário a pressão psicológica de fazer algo por um mundo melhor. O mecanismo é simples: publique ou compartilhe algo que supostamente represente uma causa e pronto, você fez a sua parte. Bem, há quem defenda que pior do que aqueles que fazem pouco são aqueles que preferem não fazer nada. Resta saber se o ativismo virtual se enquadra na categoria do pouco ou do nada.

 

 

"Você diz que quer uma revolução
Bem, você sabe
Todos nós queremos mudar o mundo"

(John Lennon, na música Revolution)

 

Esta auto-ilusão de engajamento não é propriamente novidade na Internet. Desde os idos anos 1990 já se propagavam as infames correntes de e-mail, muitas das quais sob pretexto de realizar uma ação caridosa. Estes e-mails tinham propostas apelativas, como por exemplo "envie esta mensagem para o maior número de pessoas e as crianças morrendo de fome na Etiópia receberão R$ 1,00 da Microsoft por cada pessoa a quem você copiar". Nesta fase, a ignorância do funcionamento de serviços na Internet causava confusão e permitia ao leigo acreditar que seu e-mail estaria sendo monitorado e que, ao atender tais solicitações, sua ação seria monetizada em favor de algum necessitado sofrendo de fome, de câncer ou necessitando de um transplante.

Voltando à questão da atitude generosa, o que move as pessoas a buscarem praticar o bem em algum nível, mesmo que apenas virtualmente? Não se pode dar uma resposta unificada, pois as pessoas o fazem pelos mais diferentes motivos: por genuíno sentimento de satisfação, por esperar algo em retribuição, para reduzir um sentimento de culpa (consciente ou inconsciente), para obter reconhecimento público, por obrigação religiosa, etc. Cada um de nós possui seu lado altruísta e seu lado egoísta em função de múltiplos fatores, desde aspectos evolutivos, passando por esquemas sociais assimilados, até questões relativas às vivências particulares de cada indivíduo.

Seja qual for a motivação de cada um em seu inspirado momento de benfeitor, vale uma autoanálise sobre a verdadeira intenção por trás da ação. Não a que você alega a si mesmo, mas a que realmente te move. Se sua real motivação for transformação social, por exemplo, então vale ser honesto consigo mesmo e diferenciar entre ação concreta e fantasia. Há incontáveis oportunidades de contribuir para uma sociedade melhor, que vão desde o básico exercício da cidadania e ética até o engajamento voluntário em algum movimento organizado (ou a criação de um).

Reforço que não questiono a validade de se propagar ideias pela Internet. Mas faço um convite à reflexão (mesmo que isto incomode um pouco):

O que você está fazendo para mudar o mundo além de postar no facebook?

 



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