Por que você trabalha?
O conflito entre necessidade e realização no trabalho


Por Edwin Karrer


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Por que você trabalha?

Esta pergunta pode causar um certo estranhamento inicial à maioria das pessoas que tenham que respondê-la. Algumas das possibilidades de respostas mais comuns seriam: "pra sobreviver", "pra ganhar dinheiro", "pra pagar as contas", "pra receber meu salário no final do mês", "por que preciso", "pra sustentar minha família", etc.

Isso ocorre por que estamos profundamente condicionados a associar trabalho com dinheiro. Não há como negar que, para a maioria de nós, a vida apresenta muitas demandas que precisamos custear a partir do retorno financeiro do nosso trabalho. Assim, a lógica onde "trabalhar = ganhar dinheiro" fica facilmente impregnada em nossas mentes.

Se é verdade que temos obrigações financeiras inerentes à nossa sobrevivência, é também verdade que, cada vez mais, tomamos como real necessidade o nosso desejo pelo supérfluo. Para sustentar o frenético ritmo consumista da nossa sociedade é preciso dinheiro. E para ter dinheiro (com exceção de uma minoria) é preciso trabalhar, ou seja, vender-se.

Obrigar-se a sair da cama todo dia de manhã e ceder a maior parte de suas horas de vida apenas em troca de pagar suas contas, adquirir bens ou deixar seu extrato bancário mais folgado, me parece uma vida miserável e esvaziada de sentido. Esta é hoje a triste realidade de grande parte da população mundial.

Desde a Revolução Industrial, o explorado sente-se grato ao explorador pelo benefício de proporcionar-lhe um emprego, enquanto tem seu tempo de vida desapropriado. Cada hora de vida vendida é um tempo que não volta, que não pode ser recuperado futuramente por nenhum dinheiro do mundo. Tudo isso a troco de que?

 

 

"A propaganda põe a gente pra correr atrás de carros e roupas.
Trabalhar em empregos que odiamos para comprar merdas inúteis.
Somos uma geração sem peso na história.
Sem propósito ou lugar.
Nós não temos uma Guerra Mundial.
Nós não temos uma Grande Depressão.
Nossa Guerra é a espiritual.
Nossa Depressão, são nossas vidas.
Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seriamos milionários, estrelas do cinema ou astros do rock.
Mas não somos.
Aos poucos tomamos consciência do fato.
E estamos muito, muito putos.

Você não é o seu emprego.
Nem quanto ganha ou quanto dinheiro tem no banco.
Nem o carro que dirige.
Nem o que tem dentro da sua carteira.
Nem a porra do uniforme que veste.
Você é a merda ambulante do Mundo que faz tudo pra chamar a atenção.

Nós não somos especiais.
Nós não somos uma beleza única.
Nós somos da mesma matéria orgânica podre, como todo mundo."

(Tyler Durden, personagem interpretado por Brad Pitt no filme Clube da Luta)

 

Como sociedade, nos submetemos a uma servidão voluntária, onde cedemos nosso tempo de vida, conhecimento e energia para manter o sistema econômico funcionando. O dinheiro pelo qual vendemos nossas vidas, nós devolvemos ao sistema consumindo supérfluos que nos convencemos serem necessidades. No interminável ciclo "produzir-consumir", não é mais a demanda que regula a oferta, mas a oferta que impõe a demanda. O valor social atribuído ao indivíduo está no TER, em detrimento do SER. Para muitos de nós, isso assume um caráter de sentido existencial.

Afirmar que trabalhamos por causa do dinheiro talvez possa ser comparado a alguém dizer que vive para respirar e alimentar-se. Estas demandas, quando atendidas, viabilizam a vida, mas não são sua finalidade última. Do mesmo modo, os recursos financeiros que arrecadamos pelo nosso trabalho não podem ser a finalidade, mas sim um desdobramento.

 

 

"De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder sua alma?"
(Marcos 8:36
)

 

Uma técnica utilizada em muitos circos para manter um elefante contido é amarrá-lo com uma corda a uma pequena estaca enfiada no chão, a qual ele poderia arrancar facilmente, libertando-se para ir onde quisesse. Então por que um animal tão forte submete-se a uma limitação tão frágil? Por que ele acostumou-se a acreditar que está preso. Durante algum tempo ele foi mantido preso por fortes correntes firmemente presas, até que parou de tentar e assumiu que simplesmente não podia libertar-se. Então, mesmo quando suas amarras já não são suficientes para contê-lo, ele submete-se a elas. Assim somos nós em boa parte da vida. Temos enorme potencial de realização, mas nos submetemos à acomodação por não acreditarmos em quão fortes somos para mudar as coisas e em quão longe podemos ir.

O sentido que nosso trabalho deve proporcionar à nossa vida tem valor incomparavelmente maior que o do dinheiro que nos pagam para realizá-lo. Quando o trabalho atende apenas as necessidades materiais, mas não é fonte de satisfação e realização pessoal do sujeito, a sensação de frustração, anulação e perda de vida vai ganhando espaço e pode gerar desequilíbrio e adoecimento.

 

 

“Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperá-la. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por não viver no presente nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se não tivessem vivido.” (Confúcio)

 

No domingo, mais uma vez se acumularão lamentações pela segunda-feira que se aproxima, onde "vai começar tudo outra vez". Na segunda-feira de manhã, os ambientes de trabalho serão ocupados por pessoas iniciando suas contagens regressivas, no aguardo tanto do fim do expediente como da sexta-feira.

Você trabalha apenas pelo salário que recebe? Qual o sentido da sua vida? Qual o real sentido do que você faz? Afinal...

Por que você trabalha?

 



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