Psicologia do fim do mundo
Por que as profecias apocalípticas fazem tanto sucesso

Por Edwin Karrer


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Desde tempos remotos, incontáveis profecias sobre o fim do mundo surgiram e falharam. No entanto, apesar do longo histórico de expectativas apocalípticas frustradas, ainda conservamos um estranho fascínio sobre esse assunto, sempre havendo quem defenda que "esse próximo é pra valer!". O fim dos tempos é um tema tão enraizado na história humana que a teologia e filosofia possuem um ramo (escatologia) dedicado a estudar o destino final da humanidade. Por que será que as profecias sobre o fim do mundo conseguem capturar a atenção de tantas pessoas?

É válido reconhecermos que o "fim do mundo" já aconteceu aqui na Terra... algumas vezes! Ao longo da existência do nosso querido planeta, vários eventos catastróficos de proporções planetárias já ocorreram, sendo que em pelo menos 5 deles foi eliminada a maior parte da vida existente no planeta nessas ocasiões. Movimentação de continentes, choques de grandes asteroides com  a Terra e atividade de supervulcões estão entre as principais causas investigadas para esses episódios. Nosso cenário atual, embora de perspectivas ruins em termos ecológicos, é muito tranquilo se comparado com os grandes eventos que ocorreram até dezenas de milhões de anos atrás, muito antes do surgimento da nossa espécie. Cada "fim de mundo" desses foi seguido de um boom de renovação, com retomada de expansão da biodiversidade.

De algum modo, essa ideia de renovação parece estar embutida nas expectativas humanas sobre fim do mundo, que seria mais um ponto-e-vírgula do que um ponto final. A religião contribui bastante para isso, já que grande parte das religiões (especialmente as ocidentais monoteístas) possui em suas doutrinas a promessa de um momento final com o julgamento de todos os homens por Deus, vindo então a grande recompensa (ou castigo). Mas o entendimento dessas questões parece não ser muito preciso nem entre estudiosos de uma mesma base religiosa. A Bíblia, por exemplo, está repleta de referências apocalípticas que possibilitam conflitos de interpretação. Trechos que em algumas traduções aparecem como "fim do mundo", em outras aparecem como "fim desta era", "fim desta época", "consumação do século", etc.

Para muitos, é fácil ignorar previsões religiosas. Mas o fim dos tempos não tem no Juízo Final (ou nos dogmas religiosos em geral) sua única fonte. Há opções para todos os gostos: caos social pelo colapso do capitalismo, guerra nuclear, crise ambiental, esgotamento de recursos por superpopulação, crise energética, revolta das máquinas com inteligência artificial, explosão de supervulcão, apocalipse zumbi, invasão alienígena, inversão dos polos da Terra, colisão cósmica, tempestades solares devastadoras... pode escolher à vontade!

Aliás, as teorias não científicas sobre eventos astronômicos com iminente potencial destruidor para a Terra são tantas que a NASA criou uma página (em inglês) para desfazer o mal-entendido sobre 2012.

 

 

"O que a lagarta chama de fim do mundo, o homem chama de borboleta."

(Richard Bach)

 

A questão do calendário maia é a "bola da vez" nas discussões apocalípticas. Não vou me aprofundar sobre isso, mas quero deixar uma breve consideração a esse respeito. O fim do calendário Maia, em seu modo peculiar de registrar o tempo, representa apenas o fim de mais um ciclo longo, equivalente a 5.125 anos. O fato de um calendário terminar não significa que o mundo termine com ele. Já vi muitos calendários chegarem ao fim sobre a minha mesa e nem por isso o mundo acabou.

Embora a maioria das pessoas (mesmo nos casos onde há certo receio)  consiga fazer um bom gerenciamento disso no dia a dia, muita gente ao redor do mundo sofre hoje o que é chamado "síndrome do fim do mundo". O nível de tensão e angústia chega a ser tão grande em alguns casos, que pessoas acometidas por essa condição chegam a abandonar sua vida normal e passam a dedicar-se à preparação para um cenário apocalíptico, construindo abrigos supostamente protegidos e estocando suprimentos que vão de alimentos até armas e munição. Muitos não são mais capazes de se afastar de suas versões particulares da Arca de Noé. Grandes grupos já estão peregrinando e verdadeiras comunidades se formaram para aguardar o dia 21 de dezembro de 2012.

Todo o espetáculo midiático envolvendo o tal fim do mundo tem contribuído bastante para esse quadro. Somente nos últimos anos, o cinema-catástrofe lançou muitos filmes sobre o tema — sempre com uma enorme bilheteria, para a qual você possivelmente contribuiu. Ok, eu também. Apenas para citar alguns mais recentes que você deve lembrar: Armageddon, Impacto Profundo, O Núcleo - Missão ao Centro da Terra, O Dia Depois de Amanhã, Guerra dos Mundos, Eu sou a Lenda, O Dia em Que a Terra Parou, Presságio e 2012.

Como comentei em outro artigo (Sobre a morte e o luto), acho interessante a ansiedade de muita gente quanto a eventos apocalípticos e fim do mundo, quando na verdade não precisamos de nenhum evento extraordinário para estarmos sob risco de morte. As enfermidades, os acidentes e a violência urbana em nosso cotidiano possuem potencial bastante efetivo para encerrar nossa experiência na Terra de forma individual e sem requintes hollywoodianos.

 

 

"Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte."

(Sêneca)

 

Vejamos então algumas considerações psicológicas sobre essa questão:

  • Temos um grande apelo por fazer parte de algo maior e mais significativo, de uma história grandiosa. Isto, de certa forma, dá um sentido heroico à nossa existência.
  • Boa parte das pessoas não consegue lidar com a ideia da própria terminalidade. Para os que não acreditam na vida após a morte, pode ser bastante angustiante pensar em deixar de existir e o resto continuar. Eventos apocalípticos acenam com a ideia de "se eu for, vamos todos juntos".
  • Todos sabemos que vamos morrer um dia, mas a certeza desse fato é acompanhada pela incerteza do momento em que isso se dará. Uma data apocalíptica, embora traga a angústia da terminalidade, elimina a angústia da incerteza que todos compartilhamos quanto ao tempo que nos resta. É como um paradoxo onde trocamos a (fantasiosa) segurança de nossa vida pela segurança de saber quando a perderemos.
  • Para muitas pessoas, seja por uma condição particular ou pela miséria humana que observamos na pós-modernidade, a vida parece ser desprovida de sentido. Nesses casos, a ideia de uma ruptura com esse estado de coisas tão caótico e a promessa de uma pós-vida melhor pode ser bastante atraente.

Cada um cria suas expectativas, positivas ou negativas, de forma absolutamente particular, em função de sua bagagem de vivências e crenças. Mesmo que tenhamos grandes eventos pela frente, uma coisa eu posso garantir: o nosso mundo não termina em 2012. Posso dar absoluta certeza sobre isso... até mesmo porque, se eu estiver errado, acho que não haverá muitos leitores vindo reclamar comigo. 

 



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