Qual é, afinal, o sentido do Natal?
Religião, comércio e outras considerações


Por Edwin Karrer


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Quando vamos chegando ao final do ano, o comércio nos avisa sobre a proximidade do Natal. Desde novembro, o “Bom Velhinho” começa a dar o ar da sua graça quase em toda parte, mas chega às vitrines das lojas e aos comerciais de TV antes de chegar às decorações residenciais. Nesta época é desencadeada a desgastante corrida aos presentes, pois a mensagem que recebemos o tempo todo é: “Natal é presentear”. Os comerciais nos lembram de que temos também que comprar os itens da ceia de Natal. Comprar, comprar, comprar. O que o senso comum considera que deveria ser uma época de exaltação do amor e da família se torna um período baseado no consumo e estresse, como qualquer um que já tenha ido a um shopping center na semana de Natal pôde constatar.

Parece haver um desacordo entre as pessoas sobre o sentido do Natal. Para alguns, trata-se de Papai Noel, presentes e ceia. Outros, com uma abordagem religiosa, vão referenciar Jesus como “o aniversariante”, criticando o consumismo como uma distorção do significado do Natal. Afinal, na nossa cultura, o símbolo maior do Natal é Papai Noel ou Jesus? É uma data comercial, tradição social ou festividade religiosa? Na verdade, o Natal é tudo isso ao mesmo tempo.

O Natal possui diferentes aspectos simultâneos, sendo tanto um fenômeno de massa como uma experiência subjetiva. Por um lado, indiscutivelmente, é um ritual coletivo. Por outro lado, cada um vivencia o Natal de forma muito particular, em função dos simbolismos e emoções que mais lhe tocam nesta data.

Antes de acusarmos o comércio de ter se apropriado de uma data religiosa, precisamos compreender o simbolismo da troca de presentes, um fenômeno que não nasceu na mesa de trabalho do pessoal do marketing (embora lá tenha especialmente se desenvolvido). O ritual de troca de presentes é uma demonstração social bastante significativa em diversas culturas, não sendo exclusividade da nossa sociedade capitalista, orientada ao consumo.

 

 

"Quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade de consumo." (Millôr Fernandes)

 

Diversos antropólogos registraram os sistemas de trocas e suas semelhanças em diferentes sociedades, alguns considerando até como sendo um fenômeno universal. O antropólogo alemão Franz Boas fez referência ao Potlatch, um ritual de troca de bens entre tribos indígenas da América do Norte. O polonês Bronislaw Malinowski estudou o Kula, tradição de trocas entre tribos da Oceania. Marcel Mauss, fundador da antropologia francesa, fez importantes estudos sobre a troca nas sociedades tribais. No Império Romano realizava-se no solstício de inverno a Saturnália, um festival em honra ao Deus Saturno, onde havia a prática de visitas a amigos e familiares com troca de presentes. Acredita-se que o festival da Saturnália tenha sido absorvido pelo Natal Cristão no século IV, havendo, desse modo, a continuidade da troca de presentes.

Os registros históricos nos mostram o papel da troca nas diversas sociedades, alavancando o estabelecimento de vínculos e uma economia social que une os grupos humanos. Assim, o que o comércio faz hoje é exacerbar algo que está na própria natureza social do homem, apenas direcionando isso para incrementar as relações de consumo e o lucro.

Há todo um simbolismo de valor e vínculo no ato de presentear. No processo de escolher o presente para cada pessoa, reavalia-se o papel de cada um na sua rede de relacionamentos. Essa avaliação dos vínculos gera ansiedade e estresse. É comum que esta condição desgastante leve muitas pessoas a deixarem a compra dos presentes para a última hora, na tentativa de evitar a ansiedade sobre como os presentes serão avaliados por cada presenteado e sobre a comparação entre o que se dá e o que se recebe.

O simbolismo do presente como materialização do vínculo é tão forte que, frequentemente, quem recebe dinheiro como presente compra algo que torne visível a ligação entre doador e donatário, algo que poderá ser exibido para quem o presenteou. Em sentido inverso, quando há uma ruptura de vínculo entre as pessoas, muitas vezes um presente anteriormente recebido é dado para outra pessoa, jogado fora ou até mesmo destruído (assim como o vínculo).

Para as crianças, os presentes atuam como um mecanismo de recompensa, já que “Papai Noel só traz presentes para as crianças boazinhas e obedientes”. Com o tempo, esse mecanismo vai dando lugar ao aprendizado sobre as relações sociais de valor e vínculo.

O Natal nos traz a ideia de uma utopia familiar, baseada no modelo de família nuclear unida e perfeitamente estruturada, com a qual temos que estar neste período. Então se cria um clima de grande inadequação para as pessoas que não se enquadram nesse modelo. Pessoas sozinhas e sem familiares vivos, pessoas que vivem longe da família, pessoas brigadas com familiares do seu núcleo, assim como em outras situações imagináveis, podem até mesmo considerar o Natal como o dia mais horrível do ano.

Por outro lado, pessoas que tenham uma estrutura familiar que lhes permita sentirem-se adequadas dentro da proposta natalina, podem sentir-se culpadas por estarem celebrando felizes, talvez numa condição de grande fartura, quando há tanta gente por aí sem um lar, sem família, sem saúde, vivendo na sarjeta e sem perspectiva de uma vida melhor.

Esse contraste pode nos fazer refletir sobre nossa responsabilidade e nossa omissão neste mundo de desigualdade em que vivemos, especialmente no Natal, quando se espera que sejamos bons, caridosos, solidários, etc. Uma hipocrisia natalina diz a quem não tem certas virtudes ao longo do ano que basta tê-las, pelo menos, no Natal. É claro que a aquisição de virtudes não é algo volátil e uma pessoa não pode se tornar benevolente e solidária pontualmente em dezembro e voltar a ser egoísta nos demais meses do ano. Mas é o que se espera socialmente que as pessoas demonstrem neste período, mesmo que usando máscaras. Isso leva à aceitação social e também dá uma espécie de crédito moral suficiente para que se possa agir mais naturalmente no resto do ano.

Não podemos deixar de ressaltar o caráter religioso do Natal. Afinal, considera-se que o Natal, hoje comemorado anualmente em 25 de dezembro, refere-se ao nascimento de Jesus, pilar do Cristianismo. O Natal, inicialmente, era a data de celebração do Solstício de Inverno (dezembro no hemisfério norte) e dia principal de reverência ao Deus Sol Invicto, uma divindade então oficialmente cultuada no Império Romano. No século III a Igreja adaptou essa festividade para comemorar o nascimento de Jesus, visando converter os povos pagãos sob dominação romana.
Independente do percurso histórico do Natal, esta data é hoje, para muitas pessoas, um momento de intensa experiência religiosa, onde o amor influencia de modo especial o sentido de vida e a ética pessoal, como determinantes do desenvolvimento individual.

E o Papai Noel? Essa lenda natalina foi criada a partir da figura de São Nicolau, Bispo de Mira (Turquia, século IV), pelo seu trabalho em benefício dos pobres, principalmente das crianças carentes. Inicialmente representado com uma roupa marrom e verde, o Papai Noel com roupa vermelha e branca que conhecemos hoje se popularizou mundialmente na primeira metade do século XX, especialmente graças ao seu uso publicitário pela Coca-Cola.

 

A imagem do Papai Noel que conhecemos hoje surgiu na publicidade da Coca-Cola nos anos 1930

 

Apesar da simpatia com que o Bom Velhinho é retratado, ele possui muitos críticos por diferentes razões. Algumas das críticas feitas são: Papai Noel desvia o sentido religioso do Natal; Papai Noel, em algum momento, acaba sendo entendido pelas crianças como uma mentira inventada pelos adultos para enganá-las; Papai Noel simboliza a exploração comercial do Natal; Papai Noel é uma interferência cultural estranha para nós que, apesar de vivermos em um país tropical (com clima infernal), temos enfeites simulando neve e pessoas fantasiadas com aquela quente roupa de inverno. Independente de tudo isso, existe um fortíssimo apelo da tradição, pelo qual dificilmente alguém deixaria de estranhar um Natal sem a figura do Papai Noel.

Com tantas questões nada simples, ao invés de discutirmos sobre qual seria “O” sentido do Natal, devemos encarar este período como um fenômeno complexo pelos seus aspectos psico-sócio-histórico-culturais.

Por fim, apesar de todo o simbolismo contido na troca de presentes, estejamos atentos para evitar que a máquina capitalista aproveite a ocasião para apertar ainda mais a coleira com a qual nos arrasta, escravizados pela cruel dinâmica desta sociedade de consumo.

 



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