Quando dois é pouco
O poliamor como alternativa de relacionamento

Por Edwin Karrer


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Nossa sociedade é essencialmente monogâmica e mononormativa. Nesse cenário, a ideia de relacionamentos não-monogâmicos desperta reações que vão de uma rejeição a priori até uma curiosidade: será possível fazer dar certo uma relação afetivo-sexual entre mais de 2 pessoas?

Os modelos convencionais de relacionamento parecem não dar conta do cenário atual. Sempre houve expectativas fantasiosas sobre relações conjugais, como acreditar que um parceiro pudesse completar plenamente o outro e que a plenitude proporcionada pela relação seria suficiente para que nenhum dos dois tivesse qualquer vontade de estar com outra pessoa. Hoje a frustração dessa idealização se soma ao questionamento de padrões vigentes. Como resultado, um número crescente de pessoas está se voltando para outras alternativas de relacionamento que lhes pareçam potencialmente mais satisfatórias.

A proposta de modelos relacionais não-monogâmicos — que está longe de ser novidade na história da humanidade — teve uma retomada de força a partir dos anos 60, com o surgimento da pílula anticoncepcional. A possibilidade de escolha feminina quanto à gravidez, dissociando sexo de procriação, levou a uma revolução sexual de grandes impactos sociais, incluindo o movimento hippie, que tinha no amor livre um de seus pilares. Apesar da crescente preocupação com doenças sexualmente transmissíveis a partir dos anos 80 e das consequentes mudanças de comportamento sexual, boa parte das mudanças originadas na revolução sexual teve caráter irreversível.

Nos últimos anos um número crescente de novelas, séries, documentários, programas de TV e matérias em revistas e jornais tem feito muita gente parar pra pensar em como seria experimentar um relacionamento com mais de uma pessoa havendo conhecimento e consentimento das partes envolvidas. Além de pensar no assunto, muita gente vem botando isso em prática através de modelos não-monogâmicos éticos e consensuais. O poliamor é um desses modelos que se apresentam em alternativa ao ainda vigente padrão monogâmico.

O poliamor baseia-se na ideia de que é possível amar e relacionar-se simultaneamente com mais de uma pessoa de forma ética e consensual, propondo a ausência de exclusividade tanto afetiva quanto sexual na relação. Para os poliamoristas, um segundo (ou terceiro etc.) amor não anula o primeiro, assim como ter outros filhos não anula o amor dos pais pelo primogênito. Todos são amados sem que a relação seja norteada pelo receio de compartilhar ou perder. O amor não é dividido, mas somado. Uma vez neutralizado o ciúme, é possível desenvolver a compersão, que é o sentimento de felicidade por a pessoa amada estar feliz ao relacionar-se também com outra pessoa.

 

 

"O preço da fidelidade é a eterna vigilância."

(Millôr Fernandes)

 

Muitas pessoas percebem em si mesmas esse modo de funcionamento. Porém, por não conhecerem a não-monogamia como uma possibilidade relacional viável, podem passar a vida em conflito com seus sentimentos e desejos, tendo que escolher entre: 1) Anular-se, passando a ver o relacionamento como fonte de interdição e frustração; 2) Trair, estabelecendo uma quebra unilateral da exclusividade; ou 3) Terminar uma relação com alguém de quem ainda gosta para dar conta do sentimento por outra pessoa. Todas essas opções de resolução do conflito são muito ruins.

Curiosamente, grande parte das pessoas que criticam o poliamor — um modelo ético e consensual — são pessoas que têm ou já tiveram relacionamentos extraconjugais. Tal hipocrisia pode, ao menos em parte, ser explicada pelo fato de que muitas pessoas gostariam de ter liberdade relacional, mas não admitem a mesma liberdade para a pessoa amada. Assim, para muitos desses, parece mais aceitável a ideia de conduzir essa liberdade de modo unilateral através do amantismo (que não tem relação com o poliamor, por não ser ético nem consensual).

Falando em amantismo, se a monogamia fosse algo inerente à natureza humana, será que a infidelidade seria (como é) um dos temas e práticas mais recorrentes no mundo? Será que algo "natural" precisaria de tanto policiamento e controle na tentativa de que se estabeleça? É uma reflexão válida.

 

 

"Fidelidade! Ainda hei de analisá-la um dia. Entra nela o amor da propriedade. Há muitas coisas que jogaríamos fora, se não temêssemos que outrem a pudesse aproveitar."

(Oscar Wilde)

 

Outra confusão que não se deve fazer é tomar poliamor como sinônimo de poligamia, já que na poligamia existe privilégio unilateral e o poliamor deve ser necessariamente igualitário entre todos os envolvidos. Desse modo, quando, por exemplo, um homem propõe "poliamor" para uma mulher, mas com a condição de que ela somente se relacione com outras mulheres, isso não é poliamor, é apenas um malandro querendo legitimar privilégios. Lembre-se: uma relação poliamorosa deve ser necessariamente igualitária, sem privilégios nem opressão.

Um relacionamento poliamoroso pode ter acordos muito diferentes entre os envolvidos, não havendo receita de bolo. Pode ir desde acordos razoavelmente restritivos até a ausência de restrições. Pode existir ou não um acordo de polifidelidade, que é uma exclusividade entre os membros de uma configuração poliamorosa (por exemplo: os 3 participantes de um trio só poderem se relacionar entre si). Também pode ou não haver uma hierarquização formal das relações, embora em algum momento isso tenda a ser algo problemático. Seja qual for o acordo estabelecido, é muito importante que haja responsabilidade afetiva, levando em consideração as dificuldades de cada um, sempre com muito diálogo e transparência.

Embora possa ser libertador e abrir possibilidades muito positivas, é claro que há desafios próprios do poliamor, assim como há em qualquer modelo relacional. A dificuldade de conciliar as agendas, hábitos, preferências, manias etc de três ou mais pessoas pode ser um impeditivo em muitos casos. É preciso uma dose multiplicada de compreensão, paciência, companheirismo e desapego.

Apesar de parecer contraditório, gerenciar o ciúme pode ser um grande desafio para boa parte das pessoas que decidem tentar um relacionamento poliamoroso. Não basta desconstruir racionalmente a posse nas relações para que surja automaticamente a compersão. É um processo de habituação onde se vai conquistando a tranquilidade através do próprio relacionamento, ao experimentar novas vivências relacionais (suas e da pessoa amada) constatando que isso, ao invés de abalar a relação, pode fortalecer a ligação e a cumplicidade.

A rejeição social ainda é também um grande desafio — especialmente para as mulheres nesse mundo machista — já que em uma sociedade hipócrita como a nossa parece haver mais aceitação para a traição do que para relacionamentos consensualmente assumidos entre mais de duas pessoas. Nesse aspecto, devemos observar algum avanço nos próximos anos. Creio que o poliamor tende a conquistar a devida aceitação e respeito como uma possibilidade relacional viável e legítima, independente das escolhas de cada um.

Relacionar-se é algo desafiador por si só, independente do formato do relacionamento. O mais importante é que as escolhas individuais não representem sacrifício ou anulação para nenhum dos envolvidos. Você seria capaz de se livrar dos sentimentos de posse e insegurança para expandir seu amor a mais pessoas e aceitar que a pessoa amada também o faça?

 



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