Quando perda de memória representa dano
Algumas considerações sobre a Doença de Alzheimer


Por Cláudia Capitão


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O aumento da expectativa de vida nas últimas décadas e o incremento tecnológico no campo da medicina nos colocou diante de uma doença que afeta principalmente o processo de senescência, causando um envelhecimento patológico e ainda incurável, que é a Doença de Alzheimer (DA).

Hoje sabe-se o nome desta doença, que provavelmente acometeu muitas pessoas  séculos atrás, comumente chamados de velhinhos “caducos” ou “esclerosados”. O nome científico não sabíamos, mas já conhecíamos boa parte dos sintomas: perda da memória e de outras capacidades cognitivas, mudanças de comportamento e personalidade e um sofrimento terrível para os seus familiares.

O início da Doença de Alzheimer muitas vezes passa despercebido ou é confundido com as alterações próprias do envelhecimento, mas é importante ressaltar que no envelhecimento saudável os prejuízos de memória não progridem e nem são tão frequentes a ponto de interferir na autonomia dos idosos. Este é um ponto relevante e que facilita um diagnóstico mais precoce, onde os tratamentos tendem ser mais eficazes, tanto os farmacológicos como os não farmacológicos. E dentre os tratamentos não farmacológicos insere-se a psicologia.

O diagnóstico da DA tem sido basicamente clínico, e somado aos exames clínicos e de neuroimagem, deve ser realizada uma análise das condições cognitivas do indivíduo, denominada avaliação neuropsicológica. Através deste exame complementar é possível traçar o perfil cognitivo do paciente e correlacioná-lo aos sintomas da DA. Além da perda da memória, é obrigatório que haja outro domínio cognitivo comprometido, como linguagem, percepção, habilidade motora e funções executivas, que interfiram na funcionalidade das atividades cotidianas, e aplicação de testes neuropsicológicos é fundamental para tal constatação. Então, logo na fase de investigação da doença, temos a psicologia implicada no diagnóstico, uma vez que a avaliação neuropsicológica auxilia no diagnóstico diferencial da DA com outras demências ou outras condições do envelhecimento patológico, como a depressão.

Uma vez diagnosticada a doença de Alzheimer, pode-se pensar também num tratamento que minimize o avanço da doença com um trabalho de estimulação cognitiva das funções deficitárias, denominado Reabilitação Cognitiva, outra função que pode ser exercida pelo psicólogo.  Por Reabilitação Cognitiva podemos compreender  um conjunto de técnicas que visam a estimulação e compensação de domínios cognitivos deficitários, que interferem não somente no funcionamento cognitivo do sujeito, mas também nas atividades cotidianas e na sua qualidade de vida.  

Mas seria um ledo engano pensar que as perdas restringem-se apenas ao campo cognitivo. Se a DA afeta a capacidade mental do indivíduo, causando uma série de limitações e impacto na sua qualidade de vida, com certeza vai afetar também a saúde mental das pessoas envolvidas neste contexto. O paciente, que embora muitas vezes não relate espontaneamente a sua tristeza, vai se deparar com um sofrimento psíquico ao perceber o “perder-se de si mesmo”. Já não é capaz de guardar informações facilmente,  lembrar-se de eventos importantes e recordar detalhadamente passagens de sua vida, perdendo aos poucos a chamada memória autobiográfica, fora a perda de outras habilidades, que o torna com a progressão da doença dependente do cuidado de terceiros, familiares ou não. Para amenizar e minimizar o quanto possível esta dor psíquica, é imprescindível que seja oferecida a esta pessoa uma escuta diferenciada, uma orientação e acolhimento mais adequados, próprios da atividade de um psicoterapeuta, seja qual for a linha psicológica  que o mesmo utilize como referência.  Raiva, negação e depressão são sintomas de uma condição psíquica que pode agravar ainda mais a situação, tanto para a pessoa doente quanto para sua família, e neste momento se faz necessária a atuação do psicólogo.

Diante do adoecimento do outro, a família também torna-se doente. O esgotamento físico e mental nos cuidados ao ente familiar causa uma perda da qualidade de vida também dos cuidadores familiares. A participação em grupos de apoio pode auxiliar no processo de conhecimento da doença, oferecendo informações sobre as fases da doença e suas implicações, ajuda na adoção de estratégias que facilitem os cuidados diários, como mudanças na forma como encara o adoecimento de seu familiar, como lida com as situações inesperadas e causadoras de estresse e como pensar e cuidar de si mesmo. Além disso, a troca de experiência entre os participantes promove uma identificação e reconhecimento mútuo de que o drama não atinge só a você, mas que tantas outras pessoas passam pelas mesmas dificuldades. Pensando nas dificuldades podemos encontrar meios facilitadores para vivenciar esta situação e quem sabe até encontrar motivos para sorrir e encarar os problemas de uma maneira mais tranquila e afetuosa com o outro e consigo mesmo.

 



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