Sexo casual
A teimosa sobrevivência de um tabu

Por Edwin Karrer


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Podemos observar grandes diferenças no comportamento sexual ao longo do tempo, assim como entre diferentes sociedades e culturas. Historicamente, a religião vem exercendo uma forte função normativa sobre a vida sexual das pessoas, mas fatores sociais, políticos, econômicos e até sanitários também aparecem como influências significativas.

Entre os anos 60 e 70 do século passado, especialmente com o surgimento da pílula anticoncepcional, ocorreu uma revolução sexual onde os padrões comportamentais foram modificados para uma maior aceitação de outras práticas além do código até então vigente de sexo heterossexual monogâmico após o casamento.

Apesar de toda a liberação sexual estabelecida de lá pra cá, ainda persistem diversos tabus que marginalizam quem ousa viver sua vida íntima conforme tem vontade, sem as repressões usualmente internalizadas pela coletividade. Um desses tabus diz respeito ao sexo casual.

A desvalorização social do sexo casual se deve em grande parte ao modo de funcionamento da sociedade casamentista em que vivemos (leia mais em "Casamento + filhos = felicidade?"). Diferente do que prega o senso comum, sexo, amor e casamento não precisam necessariamente estar ligados (embora seja maravilhoso quando estão). Acontece que a norma social frequentemente contraria os anseios individuais.

 

 

"É quase impossível conciliar as exigências do instinto sexual com as da civilização."
(Sigmund Freud)

 

A discriminação não atinge do mesmo modo homens e mulheres. Como se sabe, o impacto nessa questão é muito maior para as mulheres, pois ainda persiste um senso comum sexista segundo o qual o homem que sai com muitas mulheres é considerado bem-sucedido no papel de macho e a mulher que sai com vários homens é depreciada como "vadia".

Em um tempo não tão remoto, a virgindade era determinante para o valor social de uma mulher. Talvez como herança desse tempo, apesar de tantas mudanças e conquistas, ainda hoje as mulheres guardam uma frequente preocupação com a ideia de "dar no primeiro encontro", como se isso fosse desvalorizá-las de forma semelhante a não ter um hímen intacto no tempo de suas avós. Muitas mulheres possuem até uma regrinha pessoal, onde por mais que estejam excitadas e morrendo de vontade de transar naquele primeiro encontro vão conter a situação para uma segunda ou terceira saída. Como se os homens estivessem contando e fossem usar isso numa avaliação do tipo: "ah, se ela só deu no quinto encontro, então essa é pra casar!". Até há homens que realmente dão importância a isso, mas normalmente são daquela categoria que bate em mulher, acha que lugar de mulher é na cozinha, etc. Ou seja, os caras que valem a pena não julgam a mulher pela contagem de saídas antes da primeira transa. Mulheres, fica a dica.

Há quem defenda o argumento da programação biológica do macho pegador e da fêmea seletiva. Segundo essa corrente de pensamento, os homens estariam programados para espalhar seu código genético entre o máximo de fêmeas que encontrar. Já as mulheres, pelo alto impacto pessoal de uma gravidez, estariam programadas para selecionar criteriosamente o melhor macho possível, tanto para ter filhos geneticamente melhores como para obter segurança para si e para a prole. Essa ideia justificaria o fato de as mulheres serem menos adeptas do sexo casual do que os homens, já que elas estariam sempre em busca de um marido e eles em busca apenas de descarregar os testículos. Particularmente, não sou adepto desse tipo de supergeneralização. Embora se possa observar tendências de gênero em estudos realizados, sabemos de muitas mulheres que acham satisfatório o sexo casual e de muitos homens que preferem um relacionamento duradouro.

Se o sexo casual já é algo frequentemente malvisto no caso dos heterossexuais, torna-se algo ainda mais discriminado no caso dos homossexuais. Muitas pessoas ainda cultivam a estúpida crença em uma natural promiscuidade gay. Além de ter que lidar com uma rejeição social à sua orientação sexual, o homossexual ainda é tachado de promíscuo — no sentido mais pejorativo do termo — se simplesmente não estiver afim de um relacionamento estável, mas quiser manter-se ativo sexualmente. O desrespeito ao livre-arbítrio alheio é uma das grandes fontes do sofrimento humano.

Quando falo sobre sexo casual, é relevante ressaltar que, no sentido aqui empregado, casual não significa sem importância. Aliás, nem acredito que uma transa à qual não se dá importância possa ser boa. O fato de você não ter planos de passar o resto da vida com a pessoa não significa que aquela experiência íntima compartilhada não seja importante. Se você quer que seja realmente bom, precisa dar a devida importância àquele momento. Mas isso também depende da consciência de que nem todo mundo que passa pela sua vida irá necessariamente permanecer até o fim. Sim, é possível que alguém simplesmente passe, bem de passagem mesmo, e que isso seja bom!

 

 

"Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."
(Vinícius de Moraes)

 

Claro que além de toda a questão social, há ainda os impactos emocionais que uma relação sexual envolve. Como intensas emoções podem ser mobilizadas tanto de forma recíproca como unilateral, é muito importante que as expectativas das pessoas envolvidas estejam alinhadas, para evitar frustração e sofrimento posteriormente. O jogo erótico depende desse alinhamento para ser bacana, mas na prática acaba havendo tropeços. Por um lado, há quem finja um envolvimento emocional inexistente, iludindo apenas para conseguir sexo casual. Por outro lado, há quem estando apaixonado se submeta a transar com alguém que deixou clara uma intenção de apenas sexo casual, pela fantasia de que a outra pessoa mude sua intenção. Tanto em uma situação como na outra, o sexo casual tende a se converter em sofrimento, não pela natureza do ato, mas pela postura dos envolvidos.

Além disso, uma pessoa pode ter péssimas experiências por recorrer ao sexo casual por motivos bastante inadequados, como: para vingar-se por uma traição; para tentar recuperar a autoestima; ou como manifestação de um comportamento promíscuo destrutivo, onde a pessoa se submete sem nenhum critério a qualquer oportunidade sexual e se expõe aos seus riscos.

Falando em riscos, vale sempre lembrar que sexo, apesar de ser algo maravilhoso, implica riscos tanto emocionais quanto biológicos, como o contágio de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada. O uso de proteção, que é sempre recomendável, no caso de parceiros meramente ocasionais se torna ainda mais crítico.

Concluindo: sexo casual não pode ser classificado essencialmente como bom ou ruim, certo ou errado. Pode ser válido para algumas pessoas, mas não para outras. Pode ser válido em determinados momentos, mas não em outros. O importante é olhar para o sexo com mais naturalidade, liberdade e leveza, conhecendo melhor a si mesmo e buscando entender o que está por trás de suas escolhas.

A sociedade, em seus aspectos culturais e especialmente nos religiosos, pode até permanecer apegada à condenação de quem deseja viver livremente sua vida sexual. Mas cada um tem — embora tentem lhe convencer do contrário — autonomia para abolir de sua vida a velha noção de pecado e a rotulação pejorativa que impedem uma vida plena e satisfatória. Entenda o que você realmente quer e viva sua vida plenamente, com intensidade e responsabilidade, pois ninguém mais pode fazer isso por você.

 



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