Sobre a morte e o luto
Considerações sobre a finitude humana


Por Edwin Karrer


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A figura do esqueleto segurando uma foice tornou-se famosa desde o final da Idade Média, período em que a Peste Negra, a Guerra dos Cem Anos e a fome tiraram a vida de dezenas de milhões de pessoas na Europa (boa parte da população da época). Além do ceifador (associado ao trigo, cujo significado bíblico é vida), não faltaram outras formas de personificar a morte ao longo do tempo, incluindo o Anjo da Morte. Na mitologia grega, Tânatos era a personificação da morte, enquanto Hades controlava o mundo inferior, dos mortos.

Em muitas diferentes culturas ao redor do mundo há datas oficiais fazendo menção à morte e aos mortos, cada qual com suas peculiaridades, indo desde a alegria festiva até o recolhimento triste e saudoso. No Brasil, o dia 2 de novembro corresponde a uma data católica celebrada como homenagem àqueles que não estão mais entre nós. Independente da opção religiosa de cada um, pelas manifestações sociais observadas, esta data costuma evocar lembranças e sentimentos relativos aos familiares e amigos já falecidos, além de reflexões sobre nossa própria finitude.

Ao longo da vida, podemos passar diversas vezes pelo processo de luto, que representa uma ruptura de laços afetivos. Além do falecimento de pessoas queridas, outras experiências também nos remetem a esse processo, como por exemplo: a morte de um animal de estimação, o fim de um casamento, a mudança de uma pessoa querida para um país distante, uma demissão, etc. Apesar da dificuldade e do sofrimento, é preciso aceitar que estes momentos são parte natural da vida.

 

 

"O homem fraco teme a morte, o desgraçado a chama, o valente a procura. Só o sensato a espera"

(Benjamin Franklin)

 

Além do luto vivenciado após tomar conhecimento da morte consumada, há um fenômeno não tão conhecido pelas pessoas em geral, no qual o processo de luto tem início antes da morte propriamente dita. Trata-se do luto antecipatório, fase de adaptação onde tanto a pessoa prestes a morrer (paciente terminal, condenado à pena de morte, etc) como seus familiares e amigos se preparam para o desligamento. Anos atrás, quando atuei como voluntário no Instituto Nacional de Câncer (INCA) junto a pacientes oncológicos fora das possibilidades terapêuticas, pude observar uma ampla variedade de estratégias e atitudes de enfrentamento dos pacientes perante sua própria terminalidade.

Apesar da singularidade de cada sujeito, há certos padrões de resposta que tendem a ser compartilhados. O Modelo de Kübler-Ross, também conhecido como Os Cinco Estágios do Luto (ou da perspectiva da morte), propõe os seguintes estágios:

  1. Negação e isolamento (Ex.:"O exame tem que estar errado, isso não pode acontecer comigo!");
  2. Raiva (Ex.:"Por que comigo? Eu não mereço isso!");
  3. Barganha (Normalmente direcionada a Deus. Ex.: "Se Você me livrar dessa, prometo dedicar minha vida à religião e à caridade!");
  4. Depressão (Ex.:"Que tristeza... nada mais importa...");
  5. Aceitação (Ex.:"As coisas são como devem ser. Tudo vai ficar bem.").

Estes estágios, além da expectativa da própria morte, são aplicáveis a qualquer situação de perda potencialmente devastadora, como a morte de uma pessoa querida, divórcio, demissão, etc. Não há rigidez no sentido de alguém ter que experimentar todos estes estágios nesta ordem, mas ao menos alguns deles devem estar presentes em um processo de luto.

A reação das pessoas à ideia da morte varia ao extremo. Há pessoas cujos sentimentos associados à ideia de morrer são tão perturbadores e aterrorizantes que se recusam a falar ou até mesmo pensar sobre o assunto. Por outro lado, especialmente em quadros depressivos graves, pode haver pessoas que sintam desde um desejo de que sua morte ocorra casualmente até uma ideação suicida (executada ou não).

Um dos atributos comumente admitidos para a morte é a irreversibilidade. Sendo uma condição definitiva, nosso destino após a morte é um questionamento humano constante, servindo em muitos casos para sustentar o enfrentamento pessoal desta questão. Entre as muitas crenças acerca do destino humano após a morte, há doutrinas religiosas que levam em conta o dogma de Céu e Inferno (recompensa/pena eterna), enquanto outras lidam com a crença em sucessivas encarnações. Diferente do que muita gente pensa, o conceito de reencarnação não surgiu com a Doutrina Espírita na França do século XIX, mas vem desde os primórdios da humanidade, fazendo parte de diversas culturas nas mais diversas épocas. Seja como for, a religiosidade (em oposição ao ceticismo religioso) exerce papel fundamental no enfrentamento da morte.

 

 

"A morte está escondida nos relógios."

(Giuseppe Belli)

 

A maioria de nós vive a fantasia da morte indefinidamente adiada. Racionalmente, temos certeza de que morreremos um dia. Porém, não hoje, só num futuro distante. Na medida em que este futuro vai se aproximando, vai sendo substituído indefinidamente por outro futuro distante. É como se trocando a etiqueta do prazo de validade o produto jamais fosse estragar.

Poucos dias atrás eu estava comentando com um grupo de amigos sobre como acho curiosa a ansiedade de muita gente sobre eventos apocalípticos, fim do mundo e outras "previsões". A meu ver, isto é uma boa prova da fantasia da morte indefinidamente adiada. "Só morrerei em um futuro muito distante, mas se o mundo acabar, isto vai estragar meus planos".

Ora, como diz o ditado popular: "pra morrer, basta estar vivo". Devemos nos conscientizar da real fragilidade da vida. Não precisamos de um apocalipse zumbi para estarmos sob risco de morte. As enfermidades, os acidentes e a violência urbana em nosso cotidiano possuem potencial bastante efetivo para encerrar nossa experiência na Terra de forma individual e sem requintes hollywoodianos.

Não se trata de uma visão fúnebre da vida, muito pelo contrário! Aceitando a morte, não apenas como parte natural de nossas vidas, mas também como uma realidade concreta (não se trata de "se", mas de "quando") podemos ser mais eficientes em cultivar uma vida mais plena e cheia de sentido.

Você é capaz de reconhecer a limitação da sua permanência na Terra e viver aproveitando cada instante ou vai protelar sua vida na fantasia de que sempre haverá muito tempo pela frente?

 



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