Tristeza e depressão
Você sabe diferenciar uma coisa da outra?

Por Edwin Karrer


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Triste, deprimido, angustiado, meio deprê, pra baixo, mal, melancólico, no fundo do poço, desgostoso, curtindo uma fossa, infeliz... muitas palavras e expressões são usadas indiscriminadamente para designar coisas que, apesar de distintas, são normalmente tomadas como sinônimos: a tristeza e a depressão.

O humor pode variar significativamente em indivíduos saudáveis, não acometidos por qualquer transtorno específico. Variações transitórias do humor não representam presença de doença, pelo contrário. A ausência destas variações transitórias, com um padrão fixo de tristeza ou euforia, é que pode caracterizar um transtorno do humor.

A depressão — que não é sinônimo de tristeza — é uma doença, um transtorno do humor, que requer tratamento.

O doente acometido pela depressão apresenta uma perda generalizada de interesse e prazer (anedonia), tanto em relação a atividades e pessoas como em relação a si mesmo, podendo chegar a negligenciar os cuidados pessoais básicos. Perda de energia, dificuldade de concentração, redução das funções cognitivas, mudanças no apetite e no sono, desinteresse sexual, uso de um "filtro negativo" para interpretar as situações da pior forma, sentimento de inutilidade, desesperança em relação ao futuro e ideias e/ou ações autolesivas ou suicidas são outros sintomas que também entram no diagnóstico da depressão. As combinações de quantos e quais sintomas aparecem simultaneamente, assim como a intensidade do quadro, podem variar bastante de um caso para outro.

 

 

"Somos uma sociedade de pessoas com notória infelicidade: solidão, ansiedade, depressão, destruição, dependência; pessoas que ficam felizes quando matam o tempo que foi tão difícil conquistar."

(Erich Fromm)

 

É comum que a família se dê conta do quadro de depressão antes do doente, pois é facilmente observável que este "não é mais a mesma pessoa". A manifestação de um determinado conjunto dos sintomas acima mencionados acaba sugerindo uma condição depressiva mesmo para pessoas leigas.

Pode demorar bastante até que o doente se dê conta de sua situação, mas talvez não haja iniciativa própria de resolver o problema mesmo após a conscientização, pela própria condição depressiva. Por isso, o suporte familiar é muito importante. Mas deve-se tomar cuidado para não cair na armadilha da impaciência e da revolta: "a gente fala, tenta ajudar, mas ele não reage!". Esta incapacidade de reação é um dos sintomas da doença, sendo um dos diferenciais significativos em relação à tristeza. Uma pessoa triste guarda ainda uma capacidade significativa de reagir a estímulos prazerosos. O deprimido não.

O tratamento mais adequado para cada caso poderá ser indicado após um diagnóstico profissional. É normal que seja recomendado um tratamento simultâneo com psicoterapia e medicamentos, onde o psicólogo e psiquiatra podem trabalhar em parceria com ganho significativo de resultados para o paciente.

Já a tristeza — que não é sinônimo de depressão — é um fenômeno próprio da natureza humana e não pode ser vista como uma condição patológica.

 

 

"A vida não é triste. Tem horas tristes."

(Romain Rolland)

 

A vida nos apresenta uma grande variedade de situações, às quais atribuímos os mais diversos significados e valores. É normal que todos nós experimentemos ao longo do tempo muitas oscilações entre situações boas e ruins, às quais respondemos emocionalmente; algumas vezes de forma bastante intensa. Mas, apesar de ser da essência da vida experimentar tanto alegrias como tristezas, vivemos uma cultura de caça à felicidade e de negação da tristeza. Quem nunca ouviu, ao confidenciar um estado de tristeza a um amigo, a frase "Ah, não fica assim não"? Como assim "não fica assim"? Em que momento nós perdemos nosso direito humano de sofrer?

Nesse modo social de funcionamento, onde há uma certa incapacidade de lidar com o sofrimento (próprio ou do outro), sentimos o fenômeno natural da tristeza como uma falha, uma inadequação. Usamos máscaras sorridentes, por trás das quais correm lágrimas sofridas. Chegamos a ficar mais tristes por nos percebermos tristes — veja você que ciclo vicioso estranho. Então a pessoa vai às redes sociais para ver como os outros são extremamente felizes (com suas máscaras sorridentes) e como ela pode ser miseravelmente insatisfeita e infeliz em comparação ao resto do mundo (leia-se: sua lista de contatos online).

A necessidade de referenciais externos para determinar como nos sentimos está na razão inversa da nossa autonomia para o bem-estar subjetivo. Muitas vezes, certas referências do que nos falta são tomadas como certeza de satisfação e felicidade. "Se eu não tivesse que tomar esse remédio todo dia, eu seria feliz", "Se eu tivesse aquele corpo da capa da revista, eu seria feliz", "Se eu tivesse 20 anos a menos com a cabeça que tenho hoje, eu seria feliz", "Se eu tivesse a fortuna daquele empresário, eu seria feliz", "Se eu tivesse aquele cargo, eu seria feliz". Saúde, beleza, juventude, dinheiro, poder... nem mesmo todas essas ambições humanas atendidas simultaneamente são garantia de felicidade plena e contínua. A diversidade de vivências emocionais é inerente à experiência humana. Acredite, Mark Zuckerberg e Gisele Bündchen também possuem uma cota de tristeza em suas vidas.

Diz o ditado popular que "o dinheiro não compra felicidade". Há quem contra-argumente que "a pobreza também não compra porra nenhuma". Ok, é verdade... mas não é disso que se trata. Este ditado traz na sabedoria popular a noção de que procuramos a felicidade nos lugares errados. Em uma sociedade de consumo e do espetáculo, onde a ostentação atinge o grau máximo de importância na vida de grande parte das pessoas, o que somos capazes de exibir e as opiniões alheias a nosso respeito ocupam posições top no ranking das fontes de sofrimento.

 

 

"Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos."

(Vicente de Carvalho)

 

Além dessa busca extrema de legitimação de si mesmo a partir do outro, parecemos não achar razoável sofrer a partir de questões humanas comuns como: um ente querido afastado pela morte, uma paixão não correspondida, separação, dificuldades financeiras, fracassos de projetos pessoais ou profissionais, doenças, insatisfação com a autoimagem, solidão, etc. Não será natural uma reação temporária de tristeza ao enfrentarmos estas e outras situações?

Infelizmente, a sociedade ocidental vive um processo de medicalização da tristeza. Qualquer situação de sofrimento passa a ser erroneamente encarada como doença e a ciência acena com as "pílulas da felicidade". Muitos médicos de outras especialidades que não a psiquiatria tem receitado amplamente estes medicamentos, frequentemente por falta de preparo para distinguir tristeza de depressão.

Outro forte fator na medicalização da tristeza é o lobby da indústria farmacêutica, que além de seduzir muitos profissionais a prescreverem seus produtos, domina cada vez mais espaço na mídia. Por conta disso, a própria sociedade entra no jogo do resultado supostamente fácil e rápido. Isso faz com que mesmo médicos que entendem bem essa questão acabem cedendo a essa pressão imediatista, já que muita gente prefere apenas tomar remédio ao invés de fazer psicoterapia para enfrentar suas questões. Resta perguntar até quando essas muletas serão utilizadas. Em algum momento, os devidos enfrentamentos e elaborações precisam ser feitos, no que a psicoterapia pode dar um grande suporte.

Entendo a felicidade como uma autonomia para estar bem internamente, independente de questões situacionais. Para isso, é necessário identificar um forte sentido para a própria vida, entendendo que não é a mera satisfação de nossos desejos que nos vai assegurar a felicidade, mas sim a conexão com um propósito existencial superior, fora do eixo consumo-espetáculo.

 



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