Vida profissional e vida pessoal
É possível separar uma da outra?


Por Edwin Karrer


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Frequentemente observamos pessoas comentando sobre a dificuldade de se separar vida pessoal e vida profissional. Será que temos mesmo "vidas" tão distintas que possam ser tratadas separadamente?

É compreensível este impulso de segmentar a vida para termos uma confortável ilusão de mais controle. Somos condicionados a isso desde pequenos, aprendendo que há uma hora de comer, hora de tomar banho, hora de brincar, hora de estudar, hora de dormir, etc. Na vida adulta, naturalmente, acabamos replicando esta segmentação em outros níveis, como "vida profissional" e "vida pessoal".

Ao voltarmos no tempo até antes da Revolução Industrial (século XVIII), encontramos um modo de produção e um modelo socioeconômico muito diferentes dos atuais. O trabalho era realizado de modo artesanal, no máximo contando eventualmente com alguma máquina simples.

A vida do homem era integrada à natureza, onde encontrava funções reguladoras. A delimitação temporal do trabalho era dada pela luz solar, iniciando-se a jornada de trabalho ao nascer do sol e terminando quando este se punha. O espaço físico do trabalho era a residência e seus arredores.

 

 

"Adote o ritmo da natureza. O segredo dela é a paciência." (Ralph Waldo Emerson)

 

Com a Revolução Industrial, o trabalhador perdeu o controle do processo produtivo quando passou a trabalhar para um patrão. Não lhe pertencem mais a matéria-prima, o produto final, nem o lucro de seu trabalho. Ele vende sua força de trabalho e torna-se mero operador dos meios de produção do patrão.

Introduziu-se o confinamento espaço-tempo. O uso do relógio permite que a quantidade de trabalho seja medida em horas e o espaço físico do trabalho deixou de ser a residência para ser o espaço insalubre das fábricas. Juntando isto com as migrações do campo para a cidade, onde as pessoas foram se amontoando em grandes concentrações urbanas, a vida do homem se distanciou cada vez mais do modo natural.

Hoje registramos alguma evolução em relação às condições de trabalho no pior momento da Revolução Industrial, quando se trabalhava cerca de 80 horas semanais com uma remuneração que mal permitia a sobrevivência. No século passado, nos aproximamos das 40 horas semanais com remunerações um pouco melhores. No entanto, cada período de recessão ao longo das últimas décadas veio estabelecendo (pelo medo do desemprego) uma nova categoria de trabalhadores: os workaholics.

Um workaholic é um obcecado por trabalho cujo comportamento é trabalhar habitualmente mais do que o estabelecido em contrato (no caso de ser empregado). Estas pessoas vem, ao longo dos anos, criando um padrão corporativo. Quem não se dispõe a ceder seu tempo mais do que o combinado é visto cada vez mais com desprezo pelas empresas, como alguém que "não veste a camisa".

A tecnologia, apesar de tantos benefícios que nos proporciona, também tem um pezinho no lado negro da força. Celulares, smartphones, notebooks com conexão 3G, sistemas de videoconferência, etc., cada vez mais vem restabelecendo a residência como espaço físico de trabalho; Não em substituição, mas em acréscimo ao espaço físico empresarial. Em outras palavras: hoje, para trabalhar, qualquer hora é hora e qualquer lugar é lugar.

Neste cenário, é natural que muita gente se questione sobre o uso (e abuso) que é feito de seu tempo de vida. Cria-se uma construção simbólica na qual a vida é uma balança onde tentamos equilibrar o prato da vida pessoal com o prato da vida profissional. O processo contínuo de tirar de um prato e botar no outro, além de consumir bastante tempo, é muito desgastante. A balança parece nunca estar equilibrada.

Que tal então se, ao invés de encararmos a vida como partes distintas a serem equilibradas, nós a virmos como uma totalidade? E se não enfatizarmos a quantidade, mas a qualidade do tempo utilizado para algo? Para isso, é necessário embarcar num processo de autoquestionamento sobre prioridades.

 

 

"Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida." (Platão)

 

A impossibilidade de se fazer com sucesso esta dicotomia pessoal-profissional está no fato de não haver apenas estes aspectos na vida. Podemos ter tantos papéis a desempenhar quanto as interações e atividades que assumimos: Papel conjugal, parental, fraternal, filial, profissional, amistoso, esportivo, voluntário, etc. Ao tentarmos reduzir e simplificar o que é tão complexo, perdemos a visibilidade da dinâmica e das interseções dos papéis que exercemos.

Uma preocupação familiar não se torna algo indiferente pelo simples fato de começar o expediente de trabalho, assim como um problema sério de trabalho não deixa de existir magicamente quando termina o expediente. A vida é um contínuo, onde desempenhamos simultaneamente múltiplos papéis.

Os modelos de produção em massa desenvolvidos e aplicados entre o final do século XIX e início do século XX por Frederick Taylor e Henry Ford tentaram transformar profissionais em máquinas de alto rendimento, mas esbarraram na impossibilidade de se isolar a subjetividade do trabalhador.

Onde quer que estejamos, nossa bagagem de experiências, ideias, vontades, valores, medos, interesses, emoções, preferências, preocupações, sonhos, etc., estará sempre conosco. O sugerido "deixar da porta pra fora" não é algo simples como acionar um interruptor. Então, será que vale a pena gastar energia na tentativa de repartir a vida, como Moisés abrindo o Mar Vermelho na história bíblica?

 

 

"Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível." (Mahatma Gandhi)

 

Uma vez que você abra mão desta ideia separatista e aceite plenamente a integração dos diferentes aspectos de sua vida, vai perceber que boa parte da tensão se dissipa. A energia antes direcionada para tentar (inutilmente) manter uma fronteira rígida entre o que se passa dentro e fora do horário comercial estará então disponível para encontrar soluções harmonizadoras.

A partir de uma visão unificada, você entenderá que entrar para aquela turma de yoga pode lhe render uma promoção no trabalho, graças à ampliação de sua capacidade criativa através da prática das posturas. Ou que o sucesso naquele importante projeto a que você vinha se dedicando no trabalho pode aumentar sua libido e dar um gás na sua vida sexual. Tudo está integrado!

O ponto mais fundamental de todos é ter paixão pelo que você faz. Assim, dificilmente os momentos de maior demanda profissional serão percebidos como sacrifícios ou perdas. Se você não consegue sentir isto em relação ao seu trabalho, talvez seja bom reavaliar suas escolhas e caminhos profissionais. Caso precise de ajuda, procure um psicólogo de sua confiança que atue com orientação profissional.

 



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